Entenda o que está em jogo com a independência do Kosovo

Província sérvia, alvo do pior conflito europeu no pós-guerra, anunciou independência unilateral neste domingo

André Mascarenhas, do estadao.com.br, com agências internacionais

17 de fevereiro de 2008 | 17h44

O Kosovo declarou nesta domingo, 17, sua independência da Sérvia, finalizando um longo capítulo na violenta separação da Iugoslávia. O Kosovo estava sob administração da ONU desde o fim dos bombardeios da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) contra tropas fiéis ao ex-presidente sérvio Slobodan Milosevic, em 1999.   Mapa: a disputa dos Bálcãs      A intervenção marcou o fim de um sangrento conflito entre o governo sérvio e a população albanesa residente no Kosovo. A disputa entre as duas etnias pelo controle da região remota ao início do século 20, mas as diferenças ganharam contornos mais trágicos a partir do fim da década de 1980, quando Milosevic tornou-se presidente da extinta Iugoslávia.   Embora apenas 10% da população do Kosovo seja de origem sérvia, a região é considerada o berço desta cultura.   No início da década de 1980, a minoria sérvia na província passou a reclamar de perseguição pela maioria albanesa.   Em 1987, ainda como número dois do Partido Comunista Sérvio, Milosevic disse, em um discurso televisionado, que "ninguém ousará atacar" os manifestantes sérvios no Kosovo de novo.   Ao ser eleito, em 1989, o líder nacionalista retirou a autonomia conquistada pela província em 1974, desencadeando protestos entre a maioria albanesa.   A radicalização resulta no surgimento de um movimento rebelde kosovar, o Exército de Libertação do Kosovo. Em meados dos anos 1990, os militantes realizam ataques contra alvos sérvios.   Em resposta, Milosevic envia tropas e reforços policiais ao Kosovo, que são acusadas de perseguir e massacrar a população albanesa. Segundo as denúncias, a Sérvia estaria engajada em realizar uma limpeza étnica na região.   A perseguição leva à intervenção da Otan, que após 11 semanas de bombardeios força uma retirada das tropas sérvias. Estima-se que cerca de 750 mil refugiados albaneses tenham retornado às suas casas com o desfecho do conflito. Por outro lado, cerca de cem mil sérvios que viviam no Kosovo deixaram a região temendo retaliações.   Ainda em meio aos bombardeios, em maio de 1999, Milosevic torna-se o primeiro governante a ser indiciado ainda no poder pelo Tribunal Internacional de Crimes de Guerra de Haia.   Proposta de independência   Com o fim do conflito, a ONU assume a administração da província. No início de 2007, o enviado da organização Martti Ahtisaari propõe um plano para conceder independência ao Kosovo.   A Sérvia, apoiada pela Rússia, diz que não aceitará um acordo nesses termos. Moscou barra uma resolução que garantiria independência gradual à província sob o argumento de que a medida daria combustível para outros movimentos separatistas.   Sem a possibilidade de um acordo, o governo do Kosovo anunciou que declararia independência unilateralmente, já que contaria com o apoio das principais potências da União Européia (UE) e, principalmente, dos EUA.   Temores   O principal temor após a  independência do Kosovo é de que a minoria sérvia da província reaja iniciando seu próprio movimento separatista. Além disso, embora ambas as partes tenham se comprometido a não retornar à violência dos anos 1990, as lideranças nos dois lados dizem ter controle limitado sobre eventuais ações armadas de seus cidadãos.   Granadas foram lançadas nos prédios da União Européia e da ONU neste domingo, na cidade kosovar de Mitrovica, depois que o Kosovo declarou sua independência com o apoio europeu. Em Belgrado, manifestantes apedrejaram a Embaixada dos Estados Unidos e deixaram pelo menos 10 pessoas feridas.   Em Belgrado, cerca de 2 mil manifestantes sérvios, em sua maioria jovens, gritavam "Kosovo é o coração da Sérvia" enquanto apedrejaram a Embaixada dos EUA na cidade, protestando contra a independência da província, apoiada por Washington. Mais de 500 policiais protegiam o local.   O pior cenário seria a volta da limpeza étnica, com a população albanesa expulsando a minoria sérvia ao sul do Rio Ibar e com os sérvios avançando sobre os albaneses que vivem no norte do país.    

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