Escândalo se agrava e premiê britânico interrompe viagem

O primeiro-ministro britânico, David Cameron, interrompeu na terça-feira uma visita à África para se defender do escândalo que abalou o império midiático de Rupert Murdoch, levou à demissão de chefes da polícia e despertou dúvidas sobre a capacidade de avaliação do próprio chefe de governo.

KEITH WEIR E PETER GRIFFITHS, REUTERS

18 de julho de 2011 | 18h08

Enquanto o diretor da unidade de contraterrorismo da Scotland Yard renunciava na segunda-feira, seguindo o exemplo do chefe da Polícia Metropolitana, Cameron interrompia a já abreviada visita à África para voltar à Grã-Bretanha e participar na quarta-feira de um debate extraordinário no Parlamento, que adiou o início do seu recesso de verão.

Embora não enfrente ainda uma contestação direta à sua liderança, alguns membros do seu Partido Conservador começaram a cogitar a possibilidade, embora remota, de que Cameron seja pressionado a renunciar.

Ele estará na Nigéria na terça-feira, enquanto uma comissão parlamentar irá perguntar a Murdoch, ao seu filho James e à sua ex-executiva Rebekah Brooks se eles sabiam dos pagamentos feitos por jornalistas de tabloides do grupo a agentes da Polícia Metropolitana, e se tinham conhecimento dos grampos telefônicos nas caixas postais de talvez milhares de pessoas.

O escrutínio às ações do grupo News Corp se estende também aos seus investidores. Na terça-feira, as ações da empresa operavam em baixa de 4,5 por cento em Nova York, 17 por cento abaixo de 4 de julho, quando a polícia britânica anunciou que estava investigando se jornalistas espionaram, em 2002, a caixa de mensagens de uma adolescente que depois foi encontrada morta.

Isso reacendeu um escândalo de cinco anos, que antes parecia limitado a espionagens contra personalidades ricas, famosas e poderosas. Dez jornalistas já foram detidos e libertados sob fiança.

Em outra reviravolta no caso, a polícia informou que o ex-repórter do tabloide News of the World Sean Hoare, que havia sido responsável por denunciar as escutas telefônicas, foi encontrado morto.

Com a detenção no domingo de Brooks, 43 anos, que é amiga pessoal de Cameron e foi editora do News of the World, e com a renúncia do comissário da Polícia Metropolitana, Paul Stephenson, o primeiro-ministro se vê na obrigação de defender sua própria conduta no caso, que despertou indignação na opinião pública por causa das relações promíscuas entre a elite do jornalismo, da política e da polícia.

CAMERON NA DEFENSIVA

Ao iniciar na segunda-feira sua visita à África do Sul, Cameron novamente teve de defender a nomeação de Andy Coulson como seu porta-voz, ocorrida meses depois de Coulson ter se demitido do cargo de editor do News of the World.

Em 2007, um repórter subordinado a ele havia sido preso por grampear telefones de assessores do príncipe William.

O líder da oposição trabalhista, Ed Miliband, cujo partido sempre disputou com os conservadores a simpatia de Murdoch, não chegou a pedir a renúncia de Cameron, mas disse que esperava saber detalhes, entre outras coisas, das discussões que o primeiro-ministro possa ter tido com a News Corp sobre a proposta de aquisição total da operadora de TV BSkyB, que acabou sendo abandonada na semana passada devido ao ambiente político hostil.

"Ele (Cameron) precisa se explicar", disse Miliband.

Mais inflamado, Dennis Skinner, membro da ala mais à esquerda do trabalhismo, exigiu: "Quando o 'Dave Danado' vai fazer a coisa decente e renunciar?".

(Reportagem adicional de Jodie Ginsberg, em Pretoria; e de Stephen Mangan, Christina Fincher, Sven Egenter, Mohammed Abbas, Michael Holden e Avril Ormsby, em Londres)

Tudo o que sabemos sobre:
GRABRETANHACAMERONESCANDALO*

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.