Escócia decide pelo 'não' à independência

Resultado oficial saiu na madrugada desta sexta-feira, 19, quando urnas indicaram 55% a 45%; premiê britânico diz que cumprirá promessa de transferência de poderes para Edimburgo, mas quer esperar resultados das eleições gerais da Grã-Bretanha em 2015

Andrei Netto, CORRESPONDENTE / PARIS, O Estado de S. Paulo

19 de setembro de 2014 | 05h40

 Em um dia histórico na trajetória milenar da Escócia, 55,3% dos eleitores decidiram pela vitória do "não " à independência em relação à Grã-Bretanha, contra 44,7% pela secessão. O resultado foi anunciado nesta madrugada, pouco antes das 5h50, horário local - 1h50 no Brasil -, quando a apuração dos 3,6 milhões de votos chegou a 80%. Em pubs e praças públicas de Edimburgo e Glasgow, festa e decepção dividiram os escoceses, encerrando dois anos de disputa.

Ao todo, a campanha Better Together, liderada pelo ex-ministro de Finanças trabalhista Alistair Darling, com o apoio dos três maiores partidos britânicos, alcançou 2.001.926 votos, contra 1.617.989 votos para a Yes Scotland, campanha liderada por Alex Salmond, primeiro-ministro escocês e líder do Partido Nacional (SNP). O resultado foi atingido com uma participação recorde desde 1950: 84,5% dos eleitores inscritos nas listas eleitorais foram às urnas, dado que confirmou a mobilização popular em torno da autonomia em relação à Grã-Bretanha.

Tão logo a vitória sobre o não foi informada, o primeiro-ministro britânico, David Cameron, publicou uma mensagem nas redes sociais felicitando o primeiro-ministro da Escócia, Alex Salmond, pela campanha e confirmando que apresentará um plano de reforma constitucional para transferir mais poderes para Edimburgo, cumprindo a promessa que fizera antes do pleito é que pode sido decisiva sobre o eleitorado.

Mas, na primeira hora da manhã, Cameron fez um pronunciamento oficial sobre o tema, condicionando a entrega dos novos poderes à Escócia ao resultado das eleições parlamentares da Grã-Bretanha programadas para 2015. "Nós ouvimos a voz da Escócia e agora milhões de vozes da Inglaterra devem ser ouvidas", argumentou. 

O premier ainda deu a entender que pode exigir em troca dos novos poderes o fim do direito a voto dos parlamentares da Escócia em Westminster, o parlamento britânico, em Londres. Essa contrapartida tende a causar imensa controvérsia política, porque dos 40 deputados escoceses, 39 apoiam o Partido Trabalhista (Labours). Na prática, ao realizar as reformas constitucionais Cameron abalaria seu maior rival, o líder trabalhista Ed Miliband, que, pesquisas indicam, é o favorito para a chefia de governo no próximo ano. Miliband deve se pronunciar até o início da tarde de hoje em Glasgow, maior cidade escocesa, onde o "sim" à independência venceu com 53% dos votos.  

Outra controvérsia - que indica que a crise política na Grã-Bretanha está longe do fim e ainda pode causar até mesmo a queda de Cameron, pela insatisfação de seus correligionários conservadores - foi a declaração pós-plebiscito feita pelo líder radical de direita Nigel Farage, do Partido pela Independência do Reino Unido (UKIP), que prega o rompimento entre a Grã-Bretanha e a União Europeia. Farage afirmou que não concorda e não se comprometerá em transmitir mais poderes para Edimburgo. "O fato de que três líderes partidários fizeram acordos em lugar de milhões de eleitores britânicos não significa nada", disparou. "Por que eu deveria aceitar um acordo feito com a Escócia em momento de pânico do primeiro-ministro?"

De lado dos independentistas, o resultado do plebiscito não pode ser considerado uma grande derrota. Durante os dois anos de campanha, a Yes Scotland esteve sempre atrás na preferência, e apenas há 10 dias uma sondagem indicou sua liderança. Alex Salmond cobrou de Cameron a transferência de novos poderes para Edimburgo, disse que aceita o resultado e que a Grã-Bretanha deve continuar a caminhar "como uma única nação". Mas, fiel às diretrizes do SNP, deu a entender que a luta pela independência da Escócia viveu ontem apenas mais uma etapa de avanço reiniciado nos anos 1950, sem descartar que um novo referendo seja convocado no futuro. "É importante afirmar que nosso referendo foi processo acordado e consentido e a Escócia decidiu em sua maioria não se tornar um país independente neste momento", afirmou, exortando a seguir: "Eu aceito o veredicto do povo e apelo a todos da Escócia que aceitem o veredicto democrático".

Mais conteúdo sobre:
Escócia

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.