Estudantes da Itália rejeitam reformas e tomam escolas

Juventude protesta contra Lei Gelmini para educação; Berlusconi responde e manda polícia ocupar escolas

Flávia Guerra, de O Estado de S. Paulo,

23 de outubro de 2008 | 19h02

Na tarde desta quinta-feira, 23, enquanto Win Wenders e outros discutiam os problemas do G8 com o público que os jornalistas que acompanham o 3º Festival de Cinema de Roma, as praças da capital italiana eram tomadas por estudantes inconformados com as medidas da reforma educacional que deve mudar a historia da educação no pais. "Em vez de ficar aqui só teorizando, o que podemos fazer para mudar? Não sei se vocês sabem, mas neste exato momento nossos estudantes estão nas ruas, brigando pelo futuro deles", questionou um jornalista para a banca de diretores que realizam um longa-metragem que, em oito episódios, discute temas como fome, educação, miséria em um mundo globalizado, mas não muito. Wenders seguiu para Roma após participar da 32.ª Mostra de Cinema em São Paulo.   Fotos: Flávia Guerra   Há cerca de uma semana, os estudantes italianos tem provado que, se a direita neofascista avança, o pensamento liberal e plural ainda resiste em uma Itália que tem sido palco de tensões entre imigrantes e a máfia, a direita e a esquerda. A ultima de Berlusconi e companhia è o Decreto Lei Gelmini (que pode ser adotado pelo governo em "caso de extrema necessidade e urgência"), que prevê um retrocesso sem precedentes no quadro geral do sistema educacional do pais.   Em vez de calar, os estudantes tomaram as escolas, as praças, as ruas, o noticiário. E dão prova de que ainda há resquícios do maio de 68 em um país que mais parece caminhar em direção a uma nova Idade Média intelectual e política. Berlusconi não deixou barato e decretou na manhã desta quinta a ocupação das escolas pela Polícia. A juventude, pelo menos a que não pertence aos grêmios fascistas - que cada vez mais proliferam nas escolas e universidades - não se intimidou. Mais de 20 mil estudantes tomaram as ruas das capitais e passaram o dia gritando palavras de ordem.     "Meus pais são vereadores da Camara. Eles estão aí dentro. Sei que odeiam que a gente mate aula, mas vão odiar mais se esta reforma sair. Eles são contra esta Itália que o Berlusconi os neofascistas querem impor a nós", comentou Manuella, de 14 anos, que em sua classe do primeiro ano do segundo grau não quer deixar de ter como colega a chinesa que emigrou para Roma ha três anos.   Maristella Gelmini é a ministra da Educação italiana. Sua proposta de lei, promulgada em setembro, já foi aprovada nas instâncias locais e aguarda apenas aprovação do Senado para passar a valer imediatamente. Se passar, implicara em medidas como a total separação de estudantes estrangeiros e italianos nas escolas.   "Ou seja, è praticamente um apartheid. Os estrangeiros vão freqüentar aulas separadas. O governo diz que eles não entendem o italiano. Mas é assim que aprendem, convivendo com a gente. Se vão estar sempre separados, como vão aprender? Nunca!", completou Simone, 14 anos. Filho de brasileira, Simone não entende o leva o governo Berlusconi a pensar que aumentar o numero de alunos por sala para cerca de 33, demitir mais de 80 mil professores, diminuir a carga horária e possa trazer algo positivo.   Simone, Manuella e Graziella participam da manifestação   "A ditadura começa com a ignorância", dizia o cartaz que carregavam pelas ruas de Roma em direção ao Senado. "Não nos tirem nosso futuro", dizia a outra faixa na saída da entrevista coletiva convocada por Berlusconi e Gelmini para "desmentir todas as mentiras da esquerda". "Eles pensam que só porque somos jovens estamos fazendo baderna. Pelo contrario, queremos preservar o que nossos pais tiveram tanta dificuldade para conseguir nos anos 60. A Itália esta andando para trás! Precisamos fazer algo", bradava Graziella.   Outra medida polêmica è a adoção de um professor único em todos os níveis do ensino básico. "Como é que o mesmo professor vai saber ensinar para um aluno do segundo grau matemática, artes, português, física, química. Isso é impossível. Sem contar que praticamente não vamos mais ter aulas de inglês", bradavam os estudantes do Liceu Classico de Roma. Enquanto isso, Gelmini alega que tais medidas servem para cortar gastos exorbitantes que o setor educacional italiano tem enfrentado. "Nos não vamos pagar sua crise! Com educação não se brinca!", responderam pais e alunos em manifestação.   Enquanto o Festival de Cinema prossegue, a luta segue. Para sábado, esta prevista uma mega mobilização nacional. O "Salva Itália", organizado pelo oposicionista de esquerda Partido Democrático, promete levar milhões de manifestantes ao Circo Máximo de Roma e a todas as principais praças italianas.

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