EUA devem aceitar um mundo multipolar, afirma Turquia

Em entrevista presidente turco diz ainda discordar da idéia americana de que é preciso isolar o Irã

Entrevista com

Efe,

16 de agosto de 2008 | 06h50

O conflito da Geórgia demonstrou que os Estados Unidos não podem decidir por si mesmos a política global, mas devem aceitar a existência de um mundo multipolar, afirma o presidente turco, Abdullah Gul. Veja também:Rússia fecha estrada entre Tbilisi e o norte da GeórgiaGeórgia aceita permanência de tropas russas Ouça o relato de Lourival Sant'Anna  Imagens feitas direto de Gori, na Geórgia  Godoy e Cristiano Dias comentam conflito  Entenda o conflito separatista na Geórgia Cronologia dos conflitos na Geórgia "Não acredito que o mundo possa ser controlado a partir de um centro único. Há grandes nações, grandes povoações, um desenvolvimento econômico incrível em algumas partes do mundo", explica Gül em uma entrevista ao jornal The Guardian. "Em lugar de empreender ações unilaterais, temos que atuar todos juntos, tomar decisões de maneira conjunta e consultar com o mundo. Deve sair uma nova ordem mundial, se me permite expressá-lo assim", acrescenta o político. Gül discorda também da idéia americana e israelense de que é preciso isolar o Irã, sancioná-lo e castigá-lo. "Há tantos temas importantes, como o nuclear, Iraque, Cáucaso, Afeganistão. O Irã vai influir nesses temas. Por isso nós falamos com eles (os iranianos)", diz. Segundo Gül, o Irã tem direito a desenvolver um programa nuclear, mas não de tipo militar. "Não queremos ver armas de destruição em massa nesta região. Decididamente, não queremos vê-las em nossa vizinhança", insiste. Perguntado pela possibilidade de um ataque americano contra o Irã, Gül responde: "Não quero nem pensar. Todo mundo deveria aprender com o ocorrido no Iraque. As soluções diplomáticas são sempre melhores que as soluções duras". Gül afirma, por outro lado, que seu país pode desempenhar um papel importante para superar o fosso que separa o Ocidente de regiões mais turbulentas e assinala que um objetivo prioritário de sua política é integrar a Turquia na UE. O presidente turco quer que seu país se transforme em um lugar onde tenham plena aplicação os padrões democráticos europeus e funcione bem a economia de livre mercado. Uma Turquia que cumpra esses requisitos será "um autêntico presente para a região, para o mundo, para a paz, e essa Turquia será fonte de inspiração para muitos", manifesta Gul. "Estamos transformando-nos nessa direção, não esqueceremos nossos vínculos ou relações com outros países, os muçulmanos, os da Ásia Central, os do Cáucaso, os do Oriente Médio, entre outros", acrescenta. Gül se queixa que alguns dirigentes europeus não queiram reconhecer a contribuição positiva da Turquia à estabilização da região mais volátil do mundo. "Somos um grande ativo para a Europa. Turquia tem grande capacidade de influência na região, é indireta e pacificamente uma inspiração para a mudança. Turquia já cumpre esse papel. Algo que não se avalia suficiente", critica o presidente turco. "A Europa deveria compreender que a Turquia pode fazer mais pela estabilidade e segurança da região. Basta fixar-se no Cáucaso. No mês passado, o problema não parecia grave, mas de repente nos encontramos em uma situação de guerra", diz. "A Europa deveria encorajar a Turquia em lugar de criar problemas artificiais quando negocia conosco. Alguns países-membros ou seus políticos não deveriam misturar temas internos com assuntos estratégicos", explica Gül.

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