EUA e potências européias reconhecem independência de Kosovo

As principais potências européias e osEstados Unidos anunciaram na segunda-feira o reconhecimento àindependência de Kosovo, enquanto os sérvios reagiram comindignação e alguns governos alertaram que a secessão podecriar um precedente perigoso. O presidente da Sérvia, Boris Tadic, disse ao Conselho deSegurança da Organização das Nações Unidas (ONU) que essainstância deveria impedir a independência kosovar, ou docontrário estaria dizendo ao mundo que nenhum país temgarantias sobre sua soberania e suas fronteiras. O primeiro-ministro sérvio, Vojislav Kostunica, ordenou aretirada imediata do embaixador do país de Washington e disseque ocorrerá o mesmo nas outras capitais que reconhecerem onovo país. "Os Estados Unidos reconheceram hoje formalmente Kosovocomo um Estado soberano e independente. Congratulamos o povo deKosovo nesta ocasião histórica", disse a secretárianorte-americana de Estado, Condoleezza Rice, numa declaração hámuito tempo sonhada pelos 2 milhões de albaneses de Kosovo. "À luz dos conflitos na década de 1990, a independência é aúnica opção viável para promover a estabilidade na região",completou ela. Rice se referia à brutal repressão promovida pelo regime deSlobodan Milosevic à população albanesa da província, queterminou com o bombardeio da Otan contra a Sérvia, em 1999.Desde então, Kosovo estava sob administração internacional. O reconhecimento foi um alívio para os líderes de Kosovo,que aguardavam com ansiedade a bênção ocidental à sua secessão,mas marcou um dia triste para a Sérvia, que havia prometidonunca ceder esse território histórico, considerado por muitos oberço da pátria sérvia. Em Belgrado, houve uma passeata pacífica contra aindependência kosovar. A tropa de choque da polícia estava emalerta desde os ataques da noite de domingo contra embaixadasocidentais. "Este país está ficando cada vez menor", lamentou aestudante Jelena. Algumas lojas de albaneses tiveram vitrines destruídas, masnão houve tumultos generalizados. "Estamos fazendo a passeatapara mostrar que somos contra isso." "Apelo aos cidadãos que parem todos os protestos quelevaram à violência e ao tumulto, porque essa não é a forma deajudar a Sérvia ou a defesa de Kosovo", disse Kostunica,convocando uma grande manifestação para quinta-feira. DISCORDÂNCIAS Em todo o mundo, países com minorias turbulentas reagiramcom dubiedade ou franca oposição à declaração unilateral deindependência por parte de Kosovo. Foi o caso de Espanha,Azerbaijão, Geórgia, Sri Lanka e China, entre outros. "Se os senhores fizerem vista grossa a este ato ilegal,quem lhes garante que partes dos seus países não vão declararindependência da mesma forma ilegal", disse Tadic aos 15 paísesdo Conselho de Segurança. "Quem pode garantir que a vista grossa não será feita paraa violação da Carta das Nações Unidas, que garante a soberaniae a integridade de cada Estado, quando chegar a vez do seupaís?" A Rússia, aliada da Sérvia com poder de veto no Conselho,também defende que a ONU impeça a independência de Kosovo. OOcidente insiste que Kosovo é uma "questão européia", na qual aRússia não deve interferir. A Turquia já reconheceu Kosovo, território que dominou por500 anos, na época otomana. O mesmo fez a vizinha Albânia, quese preocupou, porém, em não ser a primeira, evitando assimacusações de que estaria cobiçando Kosovo. Os albaneses de Kosovo saíram às ruas de Prístina, acapital, agitando e beijando bandeiras da França, da Alemanha,da Grã-Bretanha, da Itália e dos EUA. O representante britânicona cidade anunciou que sua legação ganhará imediatamente ostatus de embaixada. A Espanha, que enfrenta minorias separatistas, liderou opequeno grupo de países da UE que não reconheceu aindependência kosovar, alegando que "não há base jurídicainternacional". Já a Itália, sensível à reação sérvia, afirmou que Roma"reconhece Kosovo como um Estado independente sob supervisãointernacional" -- um lembrete de que o novo país continuará sobcontrole externo, como nos últimos nove anos. "Cerca de 17 Estados [da UE] decidiram reagir rapidamentepara evitar a criação de um vácuo com um comportamentoindeciso", disse o ministro alemão de Relações Exteriores,Frank-Walter Steinmeier. O Brasil informou em nota que é a favor da "continuidade denegociações sob os auspícios das Nações Unidas e considera queuma solução deve dar-se no âmbito multilateral". Bélgica, Luxemburgo, Eslovênia, Suécia, Irlanda, Dinamarca,Finlândia, Bulgária, Polônia, Estônia, Letônia, Lituânia,Áustria e Hungria reconheceram a independência de Kosovo. República Tcheca, Holanda, Portugal, Grécia e Eslováquiaainda estão se decidindo. O Parlamento romeno já se manifestoucontra, num sinal de preocupação com a possibilidade de que oexemplo de Kosovo alimente o separatismo em outras regiões dosBálcãs. A Organização da Conferência Islâmica, que reúne 57 países,cumprimentou Kosovo pela independência. O chanceler francês, Bernard Kouchner, disse que aindependência marca "o fim dos problemas nos Bálcãs." (Reportagem adicional de Matt Robinson, Ellie Tzortzi,Daria Sito-Sucic, Ivana Sekularac, Fatos Bytyci, IngridMelander, Paul Taylor, Mark John e David Brunnstrom)

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