Ex-ativista islâmico Gul é eleito presidente da Turquia

Abdullah Gul, que era ministro dasRelações Exteriores, assumiu a Presidência da Turquia naterça-feira. Ele é o primeiro ex-ativista islâmico a chegar aoposto na história moderna do país. Em contraste com as cerimônias de posse do passado, oprincipal partido a oposição, o Partido Republicano Popular, oscomandantes das Forças Armadas e a elite laica mantiveram-se àdistância. O chefe das Forças Armadas, general Yasar Buyukanit, dissena segunda-feira ver "centros do mal" tentando minar arepública laica, em uma declaração que indicou que o Exércitotalvez não fique assistindo impassível se achar que a separaçãoentre Estado e religião está ameaçada. Gul jurou manter o princípio do secularismo, que segundoele também é garantia para a liberdade de religião. Gul foieleito indiretamente pelo Parlamento na terça-feira. "Enquanto estiver no cargo, vou abraçar todos os nossoscidadãos sem fazer diferença", disse Gul em seu discurso deposse. Gul foi ministro das Relações Exteriores quando preparou aproposta turca para a entrada na União Européia. Ele disse queo país precisa trabalhar duramente com o objetivo de se juntarà UE. "É imperativo para nosso país que nós realizemos asreformas política e econômica para caminharmos em direção asermos membros da UE", disse. O presidente da Comissão Européia, Jose Manuel Barroso,disse que a eleição de Gul pode dar novo impulso ao processo deentrada da Turquia no bloco. "Isso fornece uma oportunidade para dar um impulso novo,imediato e positivo para o processo de acesso na UE em diversasáreas importantes", disse Barroso, em comunicado. Algumas centenas de secularistas fizeram um protesto contraa vitória de Gul. Ele se estabeleceu como um diplomatarespeitado desde a eleição do partido AK, em 2002, garantindo oinício das negociações para a entrada da Turquia na UE. Mas osmilitares temem que Gul e o AK tenham uma agenda islamita. Gul foi eleito depois de a elite laica ter tentado bloqueara votação. A tentativa acabou resultando numa eleiçãoparlamentar, que foi vencida pelo Partido AK em julho. Muitos observadores acham que Gul, que rompeu com umpartido islamita em 1999, vai tentar evitar confrontos. O primeiro-ministro, Tayyip Erdogan, afirmou que pretendesubmeter seu novo gabinete reformista ao novo presidente naquarta-feira. A elite laica e os generais turcos estavam alarmados com apossibilidade de a mulher de Gul usar o véu islâmico no paláciopresidencial. O véu é um símbolo poderoso de influênciareligiosa, que foi banida por Mustafa Kemal Ataturk na fundaçãoda República turca moderna, a partir das ruínas do ImpérioOtomano. Uma pesquisa do jornal Milliyet mostrou que 72,6 por centodos participantes consideraram "normal" para a mulher dopresidente usar o véu, e 19,8 por cento disseram se sentirincomodados. Embora o primeiro-ministro tenha a maior parte do poder, opresidente tem poder de veto sobre leis e nomeia funcionários ejuízes. O cargo também tem grande força moral, por ter tidoAtaturk como seu primeiro ocupante. Desde 1960, os militares já derrubaram quatro governos, maspoucos apostam que isso se repita, já que declarações feitasneste ano pelos quartéis acabaram aparentemente levando a maisvotos para o AK.

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