Ex-membro da ONU diz que ocupação do Iraque trouxe mais anarquia

Hans Blix é o ex-chefe da equipe de inspetores da ONU

EFE,

20 de março de 2008 | 06h19

Cinco anos de ocupação do Iraque "trouxeram mais anarquia do que democracia", disse Hans Blix, o ex-chefe da equipe de inspetores da ONU que buscou - em vão - as inexistentes armas de destruição em massa naquele país. Em artigo publicado no jornal "The Guardian", o diplomata sueco faz um balanço muito negativo da invasão daquele país e suas desastrosas conseqüências para a paz mundial. "A invasão de 2003 foi uma tragédia, para o Iraque, para os Estados Unidos, para a ONU, para a verdade e para a dignidade humana", escreve Blix, que só vê um ganho: "o final de Saddam Hussein, um tirano assassino". "Se a guerra não tivesse acabado com ele, Saddam teria sido outro Kadafi ou (Fidel) Castro, um opressor de seu próprio povo, mas não mais uma ameaça para o mundo. O Iraque estava afundado após uma década de sanções", acrescenta. Os Estados Unidos e seus aliados "não podiam ter êxito em eliminar as armas de destruição em massa, porque estas não existiam, nem podiam também triunfar em seu declarado objetivo de eliminar os membros da Al Qaeda, porque estes não estavam ainda no Iraque, mas entraram depois no país, atraídos pelos ocupantes", escreve Blix. "Conseguir maior segurança para Israel poderia ter sido um objetivo não declarado dos Estados Unidos, mas se isso for assim, é difícil ver que se ganhou com uma guerra que fortaleceu o Irã", comenta o sueco. Para Blix, o mais preocupante é o legado da invasão, pois esta representou "um golpe nos esforços internacionais para impor restrições legais ao uso da força armada entre os Estados", proibido, exceto em casos muito excepcionais, que devem ser autorizados pelo Conselho de Segurança da ONU. "O Iraque não constituía uma ameaça real ou iminente para ninguém. Pelo contrário, a invasão reflete uma afirmação contida na estratégia de segurança nacional dos Estados Unidos de que a Carta das Nações Unidas era restritiva demais e que os EUA estavam decididos a usar a força armada", acrescenta o diplomata. "É certo que a invasão do Iraque não é o único caso no qual foi usada a força armada em violação à Carta, mas, vindo do mais poderoso membro da ONU, é um sinal perigoso", diz Blix. O sueco ressalta o temor existente de que "as regras da ONU das quais se fez caso omisso ao atacar ao Iraque sejam igualmente insignificantes no caso do Irã", acrescenta Blix, embora este se mostre esperançoso de que não ocorrerá assim, "dado o espetacular fracasso de garantir o desarmamento à força e introduzir a democracia por ocupação".

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