Exército britânico usa táticas coercitivas em interrogatórios

Jornal descobriu manuais que sugerem uso de ameaças, nudez forçada e privação sensorial

estadão.com.br,

25 de outubro de 2010 | 21h33

SÃO PAULO- As Forças Armadas do Reino Unido vêm treinando interrogadores com técnicas que incluem ameaças, nudez forçada e privação sensorial, no que pode ser um desrespeito às convenções de Genebra, informa a edição online do jornal britânico The Guardian nesta segunda-feira, 25.

 

Materiais de treinamento confeccionados secretamente em anos recentes dizem a futuros interrogadores que eles devem provocar humilhação, insegurança, desorientação, exaustão, ansiedade e medo nos prisioneiros que questionam, e sugerem modos para que esses objetivos sejam alcançados.

 

Um arquivo de PowerPoint criado em setembro de 2005 diz que interrogadores militares devem deixar os prisioneiros nus antes do interrogatório começar. "Deixem-nos nus. Mantenha-os nus se eles não seguirem seus comandos". Outro manual preparado para o mesmo assunto os aconselha a usar vendas para colocar os presos sob pressão.

 

Outro manual de abril de 2008 afirma que "Cpers" - sigla do Exército que designa pessoas capturadas - devem ser mantidas em condições de desconforto físico e intimidação. Privação sensorial é legal, acrescenta o documento, se houver "razões operacionais válidas".

 

Materiais mais recentes dizem que vendas, tampões de ouvido e sacos plásticos são equipamentos essenciais para interrogadores militares. Os prisioneiros interrogados também, de acordo com os prontuários, devem dormir apenas quatro horas por dia, e ser mantidos incomunicáveis caso não respondam às perguntas.

 

O material foi criado para instruir "interrogadores táticos", que conduzem interrogatórios iniciais de prisioneiros de guerra, assim como homens e mulheres em serviço de todos os três níveis das Forças Armadas que conduzem "interrogatórios em profundidade".

 

Os cursos foram dados por interrogadores que operavam em uma unidade militar conhecida como F Branch, parte da Organização de Serviços Conjuntos de Inteligência (Jsio, na sigla em inglês).

 

Um PowerPoint explica que as técnicas foram desenvolvidas durante décadas por militares britânicos servindo em Bornéu, Malásia, Palestina, Chipre, Irlanda do Norte e Arábia.

 

Os militares são aconselhados a encontrarem um local discreto para conduzir os interrogatórios, preferivelmente em algum lugar que pareça "desagradável". Contêineres de navios são descritos como locais que oferecem "privacidade para sessões de interrogatório". O lugar deve ser sempre "longe da mídia" e inaudível.

 

A convenção de 1949 de Genebra proíbe qualquer "coerção moral ou física", em particular qualquer coerção para obter informações.

 

As revelações surgem após o The Guardian e vários outros meios da imprensa mundial publicarem documentos militares americanos vazados pelo Wikileaks, que evidenciam torturas, mortes de civis e ajuda do Irã a extremistas na guerra do Iraque.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.