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Fritzl descreve ao tribunal maus-tratos sofridos na infância

Austríaco que prendeu a filha no porão por 24 anos fala da relação com a mãe, que também foi presa no local

Agências internacionais,

16 de março de 2009 | 12h15

Josef Fritzl, o austríaco acusado de ter mantido sua filha em cárcere privado durante 24 anos e ter sete filhos com ela (um morreu após o parto), relatou durante seu julgamento nesta segunda-feira, 16, os maus-tratos sofrido na sua infância. Fritzl, que se escondeu atrás de um fichário azul ao entrar no tribunal da cidade, Fritzl declarou-se culpado das acusações de incesto e cárcere privado, mas disse ser apenas parcialmente culpado de coerção e estupro. Ele declarou-se ainda inocente das acusações de homicídio e escravidão.

 

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Com a voz emocionada, Fritzl descreveu sua "duríssima infância", quando teria sofrido inúmeras agressões da sua mãe e que não teve amigos. "Minha mãe nunca me quiz. Ela tinha 42 anos (quando ele nasceu). Não queria nenhum filho e agiu conscientemente. Ela me maltratava", afirmou o austríaco ao juiz quando questionado sobre sua condição de filho não desejado. De acordo com a polícia, o homem de 73 anos confessou ter mantido a filha refém durante 24 anos em um porão construído em sua casa. Investigadores disseram que exames de DNA comprovaram que Fritzl é o pai das seis crianças que sobreviveram ao cativeiro. Uma das crianças morreu logo depois do parto. A promotoria acusa Fritzl de assassinato por considerar que a criança teria sobrevivido se o réu tivesse providenciado os cuidados médicos.

 

Em sua exposição inicial, a promotora Christiane Burkheiser acusou Fritzl de estuprar a filha diante das crianças. O advogado de defesa Rudolf Mayer pediu ao júri que seja objetivo e não se deixe levar pelas emoções. Ele declarou que Fritzl "não é um monstro". Fritzl teria incinerado num forno de sua casa um bebê que teve com a filha Elisabeth e que teria falecido logo após o parto.

 

Agressões

 

Com a voz falha em alguns momentos, o acusado relatou que a situação piorou na medida em que ele crescia e sua mãe envelhecia, e que com 12 anos começou a se defender das agressões de sua mãe. "A partir desse momento, me converti num demônio para ela". Fritzl pareceu ainda mostrar compreensão pelo que a mãe fazia, ao afirmar que "sua vida não era boa. Ela cresceu em uma fazenda e com somente oito anos já trabalhava". Ele disse ainda que nunca recebeu carinho da mãe e que não tinha nenhuma "relação interior" com ela. A mãe de Fritzl morreu após ficar trancafiada durante anos no piso superior de sua casa, cujas janelas o aposentado tapou para que ela não pudesse ver a luz do sol.

 

A relação do réu com a mãe veio à tona depois que parte de seu histórico psiquiátrico vazou à imprensa marrom da Áustria. Durante o tratamento psiquiátrico, Fritzl confessou que tinha medo da mãe mais do que qualquer outra coisa, e que a odiava por chamá-lo de "satã, inútil e criminoso" e porque ela o proibia de praticar esportes e ter amigos.  "Ela me batia e me chutava até que eu caísse no chão e sangrasse", declarou.

 

O tratamento ressaltou a falta de piedade de Fritzl para com o sofrimento alheio e o uso das pessoas à sua volta em benefício próprio, algo decorrente da falta de carinho durante a infância. Apesar de tais distorções em sua personalidade, os peritos estabeleceram que o réu está em pleno uso de suas faculdades mentais e pode ser julgado.

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