Generais croatas acusados de crimes contra sérvios são julgados

Militares considerados heróis nacionais são acusados de matar 150 pessoas e expulsar 200 mil do sul do país

Agência Estado e Associated Press,

11 de março de 2008 | 13h07

Três generais considerados heróis nacionais na Croácia começaram a ser julgados nesta terça-feira, 11. Eles são acusados de comandar a morte de pelo menos 150 sérvios em uma campanha militar realizada em 1995 e que desencadeou assassinatos e pilhagens generalizadas. Ante Gotovina, Ivan Cermak e Mladen Markac são também acusados de responsabilidade na expulsão de cerca de 200 mil outras pessoas na ofensiva, conhecida como "Operação Tempestade". O objetivo dessa operação foi retomar o controle da região de Krajina, no sul da Croácia. "Esse julgamento ocorre por causa da eliminação, pela força, de sérvios de Krajina na Croácia e pela destruição desta comunidade, e os papéis e responsabilidades desses três homens, generais do Exército croata, nesse processo", disse o promotor Alan Tieger perante Tribunal Penal Internacional para a ex-Iugoslávia (TPII) em seu pronunciamento inicial. O caso está forçando a Croácia a confrontar a dura realidade da Operação Tempestade - vista por muitos croatas como um sucesso militar - e o papel-chave do então presidente Franko Tudjman, que em comentários citados por Tieger referiu-se aos sérvios como "um câncer na parte mais frágil da Croácia". Tieger disse que Tudjman - que nunca foi indiciado por promotores, mas estava sob investigação quando morreu, em 1999 - planejou com Gotovina e Markac para retomar a terra capturada por rebeldes servo-croatas quatro anos antes, com uma campanha envolvendo explosivos e ataques militares.  "Nós temos que realizar essas explosões para que os sérvios, na prática, desapareçam", disse Tudjman, durante uma reunião de planejamento com Gotovina e outros líderes militares, segundo o promotor. Ainda que o interesse pelo caso tenha sido discreto nos últimos dias, a televisão croata transmitiu a sessão da Corte ao vivo na manhã de terça-feira. O evento foi chamado pelo apresentador de "julgamento do século". Os generais, vestindo ternos e vigiados por guardas das Nações Unidas, ficaram impassíveis durante a exposição do promotor. Eles alegaram inocência em relação aos crimes de guerra e contra a humanidade, incluindo assassinato, perseguição, saques e tratamento desumano de civis. Se condenados, podem pegar prisão perpétua. Os promotores alegam que as tropas comandadas pelos generais invadiram o local durante os três meses da campanha, pilhando, queimando casas e matando os moradores. "A comunidade sérvia era uma terra-de-ninguém, com vilas e casas destruídas", disse Tieger. "Esse caso é sobre três homens que foram meios para esses crimes", acrescentou. Na denúncia, os promotores afirmam que Gotovina, um ex-membro da Legião Estrangeira da França, sabia o que estava prestes a acontecer e não agiu para impedir ou conter as atrocidades, além de não tomar nenhuma medida em relação aos culpados pelos crimes. Cooperação croata Diferentemente da vizinha Sérvia - cujo caminho para se tornar um membro da União Européia (UE) está bloqueado pelo seu fracasso em prender o fugitivo general Ratko Mladic, acusado de crimes de guerra -, a Croácia deu um grande passo para se juntar ao bloco europeu ao cooperar com as investigações de Haia. As forças de segurança do país empreenderam várias buscas a Gotovina, fugitivo desde 2001, quando foi indiciado. A Croácia agora espera se tornar membro da União Européia até o fim da década. O indiciamento alega que as forças croatas lideradas pelos generais assassinaram civis, incluindo idosos, mulheres e inválidos. "Pessoas foram vistas sendo executadas à queima-roupa, e muitas pessoas tinham que ficar observando enquanto parentes eram mortos", indica a denúncia.  Muitos croatas ainda argumentam que a campanha foi necessária para retomar a autodeclarada república sérvia. Davor Ivankovic, um colunista do jornal croata Vecernji List, escreveu na quinta-feira que os advogados do general não estavam apenas defendendo seus clientes, mas "também tinham que defender a dignidade e a justificativa das ações (de 1995)". Tieger disse que os promotores não discutiriam o direito da Croácia de retomar a região, mas segundo ele a operação tinha um objetivo mais sinistro. "A Operação Tempestade abrangeu outro objetivo: forçar a população civil sérvia a sair e garantir sua remoção definitiva". Enquanto isso, a unidade policial encarregada de procurar o acusado de crimes de guerra Radovan Karadzic informou ter feito buscas em duas residências de casas de antigos guarda-costas do político na Bósnia. Uma unidade especial de investigações buscou nesta terça pistas sobre o paradeiro de Karadzic nas casas de Nebojsa Cavic e Ratko Lopatic, em Pale, outrora região de forte concentração servo-bósnia. Karadzic está refugiado desde seu indiciamento, em 1995, pelo tribunal de crimes de guerra da Organização das Nações Unidas (ONU). Ele é acusado de crimes de guerra e genocídio. É também acusado de envolvimento no massacre de 1995 de aproximadamente 8 mil homens e garotos muçulmanos, em Srebrenica.

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