Geórgia acusa Rússia de violar trégua; Moscou admite incursão

Governo diz que tanques russos entraram em Gori; Exército admite operação para retirar armamento georgiano

Agências internacionais,

13 de agosto de 2008 | 07h47

Oficiais da Geórgia afirmaram nesta quarta-feira, 13, que tanques russos entraram em Gori, cidade considerada estratégica e dominaram uma base militar georgiana, violando a trégua mediada pela União Européia para encerrar o conflito que destruiu o Exército da Geórgia, um dos aliados nos Estados Unidos na região, e desalojou mais de 100 mil pessoas. Forças de paz russas admitiram a incursão, afirmando que estavam removendo armamentos e munição encontrados nos arredores de Gori.   Crise reafirma poder de Putin UE apóia envio de monitores para checar trégua Geórgia diz que russos avançam para Tbilisi Rússia inicia interrogatório de presos Ouça o relato de Lourival Sant'Anna  Imagens feitas direto de Gori, na Geórgia  Godoy e Cristiano Dias comentam conflito  Entenda o conflito separatista na Geórgia Cronologia dos conflitos na Geórgia   A acusação foi feita menos de 12 horas depois do presidente georgiano, Mikhail Saakashvili, aceitar o plano de cessar-fogo mediado pelo presidente francês, Nicolas Sarkozy. Segundo a CNN, Saakashvili disse que tanques russos estão em Gori, promovendo a desordem. As forças de paz russas disseram que estão removendo os equipamentos e a munição de um depósito militar nas proximidades da cidade georgiana de Gori.   "Nas vizinhanças de Gori, um grande depósito militar foi descoberto, com equipamentos militares georgianos", disse um porta-voz das forças de paz russas, por telefone. "Ele estava desprotegido e os equipamentos estavam prontos para a batalha. Atendendo aos interesses de desmilitarização da zona de conflito e, a fim de garantir a segurança da população, o equipamento bélico e a munição estão sendo removidos agora".  Mais cedo, o general Anatoly Nogovitsyn, vice-chefe das forças russas, disse que não há tanques russos em Gori, porque não existe motivo para isso", porque as autoridades da cidade fugiram.   Segundo o jornal britânico The Guardian, testemunhas afirmam que vilas foram incendiadas e tanques russos avançam irregularmente além da Ossétia do Sul. "As pessoas estão fugindo, existe um clima de pânico absoluto. A idéia de cessar-fogo é ridícula", afirma o diário. "Eles pedem para que os aldeães pendurem bandeiras brancas do lado de fora de suas casas se não querem ser mortos a tiros".   De acordo com o alto oficial georgiano, Alexander Lomaia, cerca de 50 tanques russos entraram em Gori na manhã desta quarta-feira. Correspondentes da BBC e da AFP afirmaram que tanques foram vistos patrulhando a cidade e que separatistas estão saqueando os prédios destruídos.   O canal de notícias CNN, dos Estados Unidos, chegou a dizer que os tanques russos estavam cercando Tbilisi, mas depois a emissora americana citou o Exército russo para informar que os veículos militares não estavam a caminho da capital georgiana. Um repórter da CNN observou que o Exército da Geórgia não impunha resistência e comentou que aparentemente havia um acordo verbal para que a Rússia estabelecesse uma zona tampão perto da fronteira com a Ossétia do Sul.   Cidade natal do ditador Josef Stalin e situada a apenas 45 minutos de carro da capital da Ossétia do Sul (Tskinvali), Gori - de 50 mil habitantes - abriga a principal rodovia que liga o leste e o oeste da Geórgia. Tomar a cidade significa, para os russos, dividir o país ao meio - impedindo Tbilisi de se comunicar com diversas cidades em todo o oeste do país. Gori também é considerada estratégica porque, se for ocupada pelas tropas russas, o governo georgiano pode perder sua via de saída para o mar.   var keywords = ""; O presidente russo, Dmitry Medvedev, disse que Moscou interrompeu a operação militar porque a Geórgia já teria sido punida o suficiente por atacar a província separatista da Ossétia do Sul, região que deseja se separar da Geórgia e ingressar no território russo.   O plano de paz europeu definia que os dois Exércitos deveriam voltar para suas posições iniciais antes do conflito. Além dos tanques russos que estão em Gori, cidade na região central do país e próxima da Ossétia do Sul, a Geórgia ainda perdeu sua última base na província separatista da Abkházia, também com aspirações pró-Moscou.   Trégua supervisionada   Os ministros das Relações Exteriores da União Européia expressaram na quarta-feira seu apoio ao envio de monitores do bloco para supervisionar o cessar-fogo entre Rússia e Geórgia, mediado pela França, na região separatista. "Houve um forte apoio a forças de paz européias, provavelmente haverá forças de paz européias", disse um diplomata da UE que ouviu a discussão na reunião de emergência feita em Bruxelas.   Outro diplomata disse que a discussão continua, mas houve extenso apoio ao envio de monitores à região para ajudar a sedimentar uma trégua frágil depois de seis dias de lutas.Pela manhã, o ministro francês das Relações Exteriores, Bernard Kouchner, conclamou a UE a assumir um papel de supervisão naquela área. O chanceler comandou em Bruxelas a reunião entre os ministros das Relações Exteriores dos 27 países-membros do bloco.   "A idéia é ter monitores -- o que vocês chamariam de forças de paz eu não descreveria dessa forma. Sim, monitores, controladores, facilitadores europeus. É assim que a Europa deveria estar presente ali", disse Kouchner a repórteres. O chanceler, que acompanhou o presidente da França, Nicolas Sarkozy, em uma missão para conseguir, na terça-feira, convencer a Rússia a acatar um acordo de paz, disse estar convencido de que o governo russo aceitaria a presença de monitores europeus na Geórgia. Kouchner não descartou a possibilidade de soldados da Rússia fazerem parte da missão.   O ministro sueco das Relações Exteriores, Carl Bildt, que visitou a Geórgia em nome do Conselho da Europa, levantou dúvidas sobre a possibilidade de o governo russo permitir a presença de monitores europeus em áreas que havia capturado ou que mantinha sob seu controle.   O ministro alemão das Relações Exteriores, Frank-Walter Steinmeier, deu apoio à idéia da missão de monitoramento. Segundo Steinmeier, a UE deveria deixar de lado os esforços para apontar os culpados e concentrar-se em desempenhar um papel estabilizador em sua vizinhança, mantendo abertos os canais com a Geórgia e a Rússia.   No entanto, divergências sobre quais conclusões tirar da ação militar russa no território georgiano surgiram quando os ministros chegaram para a reunião, um tipo de encontro que raramente acontece em agosto. O ministro britânico das Relações Exteriores, David Milliband, disse que a UE deveria decidir, no próximo mês, "se daria continuidade ou não" às negociações para selar laços mais profundos com a Rússia.   Milliband observou que o Grupo dos Sete (G7, que reúne as maiores potências industrializadas do mundo) vinha coordenando sua resposta à crise na Geórgia sem envolver a Rússia. "Segundo o desejo da comunidade internacional, precisamos deixar claro que a força não é a forma correta de resolver essas complicadas questões", afirmou o chanceler.   Os ministros avaliavam também a possibilidade de enviar mais ajuda humanitária à região depois de o presidente russo, Dmitry Medvedev, ter suspendido as operações militares na terça-feira e ter concordado com o projeto de acordo de paz apresentado pela França.   Matéria atualizada às 10h25.

Tudo o que sabemos sobre:
GeórgiaRússia

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.