Gilles Lapouge: Em busca do 'George Washington' europeu

Tratado de Lisboa abre caminho para que a União Europeia tenha um 'presidente' para representar o bloco

Gilles Lapouge, O Estado de S. Paulo

06 de outubro de 2009 | 11h23

A Europa terá um "presidente" nomeado por dois anos e meio? Teoricamente, essa pequena revolução se aproxima, já que a Irlanda acaba de aprovar o Tratado de Lisboa que contém um dispositivo nesse sentido. Basta que a República Checa ratifique o tratado para a União Europeia dotar-se de um presidente que terá, na Europa, o papel assumido por George Washington, quando se tornou o primeiro presidente dos EUA, em 1789.

 

Com essa expectativa, a Europa está à procura do seu "Washington europeu". Um nome parece estar bem colocado: o do brilhante ex-primeiro-ministro trabalhista britânico Tony Blair. Mas a esquerda o renega, pois Blair apoiou a guerra do Iraque. E a direita não o perdoa por ele ser de "esquerda". Na Inglaterra, os conservadores, que em breve estarão no poder, detestariam ver, no momento em que o país se volta à direita, um britânico de esquerda assumir a presidência da Europa.

 

Suponhamos no entanto que os 27 concordem e elejam um George Washington europeu. A Europa vai ganhar em termos de clareza? Absolutamente. Será o contrário. De fato, à frente dessa pesada carroça de 27 países, teremos três condutores: o atual presidente da Comissão Europeia (o português Durão Barroso), um ministro europeu das Relações Exteriores e, enfim, um presidente.

 

Cada um desses três homens tentará impor sua autoridade aos dois outros. E nenhum deles o conseguirá, pois terão de se submeter aos movimentos contraditórios dos 27 países. Por exemplo, Nicolas Sarkozy prefere uma ação diplomática estrondosa. A alemã Angela Merkel gostaria, ao contrário, de um presidente europeu discreto. A Grã-Bretanha, visceralmente eurocética, não tem outro desejo senão lançar a carreta europeia no abismo.

 

Cada capital da UE só faz o que deseja. Sarkozy corre de um ponto ao outro do planeta, formando alianças com Brasil, Egito, Emirados Árabes, Índia. Angela Merkel procura acariciar Rússia ou China para vender os produtos alemães para esses países.

 

Como o futuro presidente europeu vai trabalhar para fazer avançar esses interesses nacionais contraditórios no mesmo passo? Berlim, Paris, Praga, Varsóvia ou Atenas sacrificarão os seus passados, suas idiossincrasias e seus interesses no altar da mística europeia? Vejamos um exemplo: as grandes capitais dispõem de assentos nas instituições internacionais, no G-8, G-20, no FMI, no Conselho de Segurança das Nações Unidas. Uma boa maneira de unificar a diplomacia europeia talvez fosse França ou Grã-Bretanha abandonarem o assento na ONU, no G-20, ou no FMI em favor de uma "representação unificada" da Europa. Seria uma boa ideia! Tão boa que jamais passaria pela cabeça de Sarkozy ou de Gordon Brown.

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