Greve geral na França provoca atrasos e corta serviços públicos

Sarkozy enfrenta 1º grande teste com paralisação; professores, empresas públicas e privadas aderiram ao ato

Agências internacionais,

29 de janeiro de 2009 | 07h28

Uma greve geral promovida por trabalhadores dos setores público e privado provocaram atrasos no transporte, interrompeu os serviços públicos e deixou milhões de crianças sem professores nas escolas em toda a França nesta quinta-feira, 29. A paralisação representa o primeiro grande teste político para o presidente Nicolas Sarkozy desde o início de seu mandato, em maio de 2007. A greve desta quinta-feira foi convocada para marcar a grande preocupação dos franceses com a crise econômica e exigir medidas de estímulo ao emprego e de melhora do poder aquisitivo, além da defesa do serviço público, já que o governo prevê demitir 30 mil servidores. Segundo a BBC, o governo francês teme que protestos até então isolados contra reformas que envolvem diferentes categorias possam se transformar em um amplo movimento de contestação social no país. Cerca de 200 manifestações estão previstas no país. Os protestos devem afetar transportes públicos, escolas, universidades, hospitais, correios, aeroportos, rádios e televisões públicas, portos, empresas de energia e telecomunicações e vários outros serviços. Em Paris, quem dependia do transporte precisou utilizar a bicicleta, caminhar longas distâncias ou até pegar barcos para chegar ao trabalho em temperaturas negativas. Os trabalhadores das companhias ferroviárias lideram o que a França chamou de "Quinta-feira negra". Centenas de professores, carteiros e equipes de hospitais também aderiram à paralisação. Muitos bancos estão fechados, e alguns trabalhadores das indústrias também se uniram à greve. Até mesmo os funcionários do Banco Central da França e das agências de seguro-desemprego, além de juízes e advogados participam dos protestos desta quinta, junto a desempregados e aposentados. A Direção Geral da Aviação Civil informou que 70% dos voos no país serão cancelados nesta quinta. Nos aeroportos de Orly e Charles de Gaulle, em Paris, a previsão é, respectivamente, de que 30% e 10% dos voos sejam cancelados. A companhia ferroviária prevê que 60% dos trens-bala circularão nesta quinta. Mas apenas entre 30% e 40% dos trens regionais devem funcionar e ainda menos no caso dos trens da periferia de Paris. Na capital, cerca de 80% dos metrôs estão funcionando, índice melhor do que o previsto. Trabalhadores do setor privado, que normalmente fazem menos greves, também se uniram ao movimento. Empregados das montadoras Renault, Peugeot-Citroën, bancos, supermercados, metalúrgicas e até pilotos de helicóptero e operadores da bolsa Euronext anunciaram sua participação nos protestos. A situação social na França é bem diferente do período anterior à crise econômica mundial. Em julho passado, o presidente Sarkozy chegou a afirmar, com ironia, "que ninguém mais percebia quando há uma greve na França". Os sindicatos franceses, normalmente divididos em razão de inúmeras divergências históricas, se uniram para convocar a greve nacional, que conta com forte apoio da população. Segundo uma pesquisa do jornal Le Parisien, 69% dos franceses apoiam a greve. Discurso moderado  Diante de tanta mobilização, o presidente Sarkozy decidiu finalmente moderar seu discurso. Na semana passada, ele havia dito "eu ouço, mas não levo em conta", ao se referir às diferentes críticas às suas reformas. Mas na terça-feira, 48 horas antes da greve, Sarkozy preferiu dizer que "ouvia as preocupações dos franceses e as levava em conta". A última greve lançada por todas as centrais sindicais ocorreu em maio de 2008, logo após a posse de Sarkozy, e reuniu entre 300 mil e 700 mil pessoas, segundo a polícia ou os organizadores. Os números foram vistos como um certo fiasco na época em comparação com os dois milhões de franceses que foram às ruas para protestar em 2003 contra a reforma da aposentadoria e, sobretudo, em dezembro de 1995, contra a reforma do Seguro Social.  A greve de 1995 paralisou os transportes públicos na França durante um mês e derrubou o primeiro-ministro da época, resultando em eleições legislativas antecipadas, que levaram os socialistas ao governo. É justamente um amplo movimento nacional como o de 1995 que o presidente Sarkozy teme atualmente, como também o fortalecimento da esquerda francesa, hoje bastante dividida, mas que poderia formar uma frente unida contra o governo. "Não está excluído que possa ocorrer nesse momento um grande movimento de contestação social como o de 1995", afirma o sociólogo Michel Lallement, do Centro Nacional de Pesquisas Científicas da França. Sarkozy baseia todo seu discurso político na ideia de "ruptura com o passado". Desde que assumiu, ele já realizou reformas nas mais diferentes áreas. Mas especialistas estimam que em razão da crise econômica e do maior descontentamento da população com o aumento do desemprego, o presidente francês deixará de lado reformas consideradas mais polêmicas. É a opinião do pesquisador Olivier Rosenberg, do Centro de Estudos da Vida Política da França (Cevipof). "Sarkozy realizou recentemente uma reforma envolvendo uma categoria de juízes, que causou protestos desses profissionais, mas isso afeta uma parte ínfima da população", diz ele. Sarkozy já adiou, recentemente, a reforma do ensino secundário, que levou milhares de jovens às ruas, e também a da liberalização do trabalho aos domingos, que não teve o apoio nem mesmo de membros de seu partido.

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