Igreja da Bélgica teme pedidos de compensação para vítimas de pedofilia

Bispo porta-voz diz que instituição evita fazer 'mea culpa' para casos de abusos de menores

Reuters

14 de setembro de 2010 | 10h50

BRUXELAS - A Igreja Católica da Bélgica está receosa de se desculpar pelos abusos sexuais contra crianças cometidos por padres por considerar que isso poderia gerar uma onda de pedidos de compensação pro parte das vítimas, disse nesta terça-feira, 14, Guy Harpigny, porta-voz dos bispos belgas.

 

"Se fizermos 'mea culpa', então seremos moralmente e legalmente responsáveis, e as pessoas virão pedir dinheiro", disse o bispo a uma rádio local. "Estamos com medo. Quem vai pedir - as vítimas, a corte, alguém mais? Por isso estamos sendo cuidadosos", continuou.

 

Um estudo sobre os abusos cometidos por padres divulgado na sexta-feira revelou que foram registrados 475 casos de abuso entre as décadas de 60 e 70. Entre as vítimas desses casos, 13 cometeram suicídio.

 

A Igreja - que organizou a investigação - e as autoridades judiciais, porém, não entraram em acordo. A polícia reuniu os documentos em junho, mas um tribunal declarou a ação ilegal e ordenou a devolução do material.

 

Na segunda-feira, a Igreja anunciou um plano para criar um centro de recuperação e reconciliação no fim deste ano, mas grupos de vítimas de pedofilia disseram que a ideia é vaga e pediram mais inquéritos por parte do governo.

 

"Depois da entrevista, recebi diversas ligações, incluindo de deputados, dizendo para darmos todos os arquivos para as autoridades", disse Harpigny, que é bispo de Tournai. Ele disse achar que os arquivos devem ser entregues, mas também afirmou que algumas vítimas não querem o Estado envolvido.

 

Sobre um eventual pedido de desculpas, o bispo se limitou a falar pessoalmente. "Como instituição, devo admitir que somos responsáveis, mesmo que por atos cometidos nos anos 60, e é por isso que, em nome de Igreja, peço perdão às vítimas", disse. Ele, porém, evitou dizer se a instituição fará um pedido de desculpas oficial.

 

Harpigny ainda disse que o Vaticano deve se pronunciar em breve sobre Roger Vangheluwe, o bispo de Bruges que renunciou em abril depois de admitir ter abusado de seu sobrinho por vários anos. Harpigny disse na semana passada que Vangheluwe, cujo paradeiro é mantido sob sigilo, deve ser julgado pela lei da Igreja. Críticos pede sua excomungação, mas apenas o papa Bento XVI pode decidir sobre esse assunto.

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