Imprensa italiana faz 'dia de silêncio' contra 'lei da mordaça'

Protesto dos jornalistas tem como intuito demonstrar rejeição ao projeto de lei das intercepções. Nas bancas do país foi encontrado um número muito pequeno de jornais

EFE

09 de julho de 2010 | 15h03

ROMA - Os meios de comunicação da Itália participaram nesta sexta-feira, 9, de uma jornada de greve em protesto contra a chamada "lei da mordaça" do Governo de Silvio Berlusconi, que limita o uso e difusão das escutas telefônicas nas investigações oficiais.

 

A iniciativa, convocada pela Federação Nacional da Imprensa Italiana (FNSI), teve forte repercussão em jornais, rádios, canais de televisão e agências de notícias, o que propiciou ao país viver uma autêntica jornada de "blecaute midiático".

 

Os jornalistas da Itália decidiram convocar o chamado "dia de silêncio" para demonstrar sua rejeição ao projeto de lei das intercepções, aprovado pelo Senado em 10 de junho e que em 29 de julho passará ao plenário da Câmara dos Deputados para seu debate definitivo.

 

A norma, que prevê penas de até 30 dias de prisão e sanções de até 10 mil euros para os jornalistas que publicarem as escutas durante as investigações, é, sem dúvida, o maior foco de polêmicas enfrentado atualmente por Berlusconi e representou um novo motivo de divisão interna dentro de seu partido, o Povo da Liberdade (PDL).

 

Nas bancas do país só puderam ser encontrados nesta sexta-feira um número muito pequeno de jornais, entre eles "Il Giornale", o jornal da família Berlusconi, mas não os esportivos, que também decidiram aderir à greve.

 

Os dois jornais generalistas de referência, o milanês "Corriere della Sera" e o romano "La Repubblica", decidiram se somar também à greve, deixando inclusive seus sites desatualizados e com declarações públicas que justificam a iniciativa.

 

A detenção brusca "é um gesto de responsabilidade dos jornalistas italianos para denunciar o Governo e chamar a atenção de todos os cidadãos sobre a gravidade de uma norma que bate na tecla da legalidade, na luta contra o crime e na livre e transparente circulação de notícias", afirma "La Repubblica" em seu manifesto.

 

Os jornalistas italianos asseguram que este projeto de lei, que limita a 75 dias o tempo que podem durar as escutas durante as investigações e que fixa multas de entre 300 e 450 mil euros para os que não o cumprirem, vai contra o direito de informação dos cidadãos.

 

"Com a adesão à greve, esperamos contribuir para sensibilizar o país e a classe política sobre o perigo que representam as normas propostas para os direitos democráticos e constitucionais de todos os cidadãos que querem ser conscientes do que ocorre em sua volta", comenta o conselho de redação do "Corriere della Sera" em seu site.

 

A greve pretende também permitir que os telespectadores saibam o que realmente está ocorrendo na Itália, onde o primeiro-ministro é proprietário dos canais privados mais importantes.

 

Precisamente no setor audiovisual foi onde se pôde ver um dos maiores seguimentos da paralisação, com o canal "Sky TG24", no qual só eram oferecidos conteúdos com pequenos boletins. O apresentador apenas lia uma série de notícias e um manifesto pela greve, para cumprir com os serviços mínimos da lei.

 

Algo parecido foi o que ocorreu no canal "RAI" e também no "Canale 5", o principal canal de televisão privada do grupo audiovisual de Berlusconi, Mediaset, que nesta sexta-feira não emitiu seu informativo da manhã.

 

Mas onde talvez a adesão à greve foi mais evidente foi nas agências de notícias. As duas principais do país, "Ansa" e "Agi", deixaram de transmitir pouco antes das 7h, informando de vez em quando a seus assinantes o motivo da detenção brusca.

 

O "dia de silêncio", "expressão de indignação, participação e reivindicação", segundo a FNSI, chega precedido de manifestações e protestos, como os que ocorreram em 1º de julho em cerca de 20 cidades italianas.

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