Arte/estadão.com.br
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Inquérito francês exime líder de Ruanda de papel em genocídio

Paul Kagame e aliados tutsis foram inocentados da morte de 800 mil pessoas em cem dias

THIERRY LÉVÊQUE, REUTERS

10 de janeiro de 2012 | 20h03

PARIS - Um inquérito francês sobre o motivo que desencadeou o genocídio de 1994 em Ruanda parece inocentar o atual presidente do país, Paul Kagame, e seus aliados da etnia tutsi, anteriormente acusados por Paris de provocarem a morte de 800 mil pessoas ao longo de cem dias.

França e Ruanda romperam relações diplomáticas em 2006, quando um juiz francês disse que Kagame, líder rebelde na época do massacre, havia orquestrado a morte do presidente Juvenal Habyarimana, da etnia hutu, para iniciar o genocídio.

Depois que o avião de Habyarimana foi abatido, extremistas hutus mataram tutsis e hutus moderados, em um dos mais acelerados morticínios já perpetrados. A Frente Patriótica Ruandense, partido tutsi comandado por Kagame, tomou o poder depois do genocídio.

Dois mísseis

 

Kagame acusa o governo francês, na época comandado pelo presidente François Mitterrand, de ter treinado e armado as milícias hutus responsáveis pelo massacre.

Investigadores franceses chefiados por dois juízes re-examinaram dezenas de depoimentos para tentar descobrir de onde partiram os dois mísseis que derrubaram o avião presidencial Dassault Falcon 50. Os dois grupos étnicos tinham bases militares nos arredores do aeroporto de Kigali.

No relatório divulgado nesta terça-feira, 10, os juízes concluíram que os mísseis não podem ter partido da base militar ocupada pelos tutsis, mas também não chega a acusar os hutus pelos atentados.

Em nota, a chanceler de Ruanda, Louise Mushikiwabo, disse que "com verdade científica, os juízes... bateram a porta para uma campanha de dezessete anos destinada a negar o genocídio ou culpar as suas vítimas. Agora está claro que a derrubada do avião foi um golpe de Estado promovido por extremistas hutus e por seus conselheiros que controlavam o quartel Kanombe".

'Erros de avaliação'

 

Há dois anos, uma investigação do governo de Ruanda atribuiu os ataques a extremistas de dentro do círculo íntimo do presidente, que buscavam evitar um acordo de partilha de poderes e queriam um pretexto para o genocídio.

Em 2006, um juiz francês havia concluído que Kagame organizou o abate do avião presidencial para desencadear retaliações entre tutsis e hutus, de modo a dar espaço para que os rebeldes da sua FPR e seus aliados assumissem o poder.

Em fevereiro de 2010, durante visita a Kigali, o presidente da França, Nicolas Sarkozy, disse que Paris cometeu sérios erros de avaliação a respeito do genocídio, e queria assegurar que todos os responsáveis fossem apanhados e punidos.

Em setembro, na primeira visita de Estado de Kagame à França depois do genocídio, o presidente de Ruanda enfatizou seu objetivo de fortalecer relações econômicas e comerciais, aparentemente retirando a exigência de um pedido de desculpas de Paris como pré-requisito para o estabelecimento de relações.

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