Inspetores visitam clínica italiana em caso de direito à morte

Inspetores visitaram na segunda-feira uma clínica italiana que deixou de alimentar uma mulher em coma, para verificar se o lugar está qualificado para deixar a paciente morrer, obedecendo a uma ordem judicial. O governo levantara objeções ao uso da clínica como lugar para chegar ao fim a vida de Eluana Englaro, de 38 anos, que se encontra em estado vegetativo desde sofrer um acidente de carro em 1992. Médicos na clínica em Udine, no norte do país, deixaram de alimentar a paciente na sexta-feira, obedecendo à decisão da Suprema Corte italiana de que se deve permitir que ela morra. O governo do primeiro-ministro Silvio Berlusconi, com o respaldo do Vaticano, vem tentando bloquear a implementação da decisão da corte, argumentando que deixar de alimentar a paciente equivale à eutanásia, que não é legalizada na Itália. O ministro da Saúde Maurizio Sacconi, que quer que a paciente seja mantida viva, disse que uma inspeção realizada na clínica no fim de semana relatou "irregularidades". Segundo o ministro, a clínica não satisfaz as exigências da decisão da corte, segundo a qual Englaro deveria morrer num asilo para doentes terminais, e não em uma clínica. Autoridades regionais enviaram seus inspetores próprios na segunda-feira para averiguar se as objeções feitas por Sacconi justificam a interrupção da suspensão da alimentação da paciente. O vice-diretor da clínica, Luciano Cattivelo, disse a jornalistas que o local preenche os requisitos legais. O caso de Eluana Englaro dividiu a Itália, país de maioria católica, e levou a uma crise constitucional entre Berlusconi e o chefe do Estado. Também suscitou um debate sobre a possível interferência indevida do Vaticano, pelo fato de ter tomado abertamente o partido de Berlusconi. O caso vem sendo comparado ao da americana Terri Schiavo, que viveu em estado vegetativo e foi autorizada a morrer em 2005, após uma longa batalha judicial. Na sexta-feira Berlusconi emitiu um decreto emergencial ordenando que os médicos voltassem a alimentar Englaro, mas o decreto foi rejeitado pelo presidente Giorgio Napolitano, para quem foi inconstitucional porque passou por cima da decisão dos juízes supremos do país. O primeiro-ministro de centro-direita está submetendo ao Parlamento, onde goza de grande maioria, uma lei que proibiria a suspensão da alimentação a pacientes que não conseguem mais alimentar-se sozinhos. O Senado deve discutir a lei na segunda-feira. Em seguida ela será submetida à Câmara dos Deputados, que dificilmente irá votá-la antes da quarta-fera. O médico de Englaro, Carlo Alberto Defanti, já disse que, com a exceção do dano cerebral irreversível que sofreu, a paciente tem condições físicas boas e que, depois de suspensa sua alimentação, pode levar duas semanas para seu coração parar de bater.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.