Karadzic diz que chances de julgamento justo são inimagináveis

Ex-líder servo-bósnio afirma rótulo de criminosos de guerra dado pela mídia influencia juízo do tribunal da ONU

Reuters e Efe,

01 de agosto de 2008 | 09h21

O ex-líder servo-bósnio Radovan Karadzic afirmou que um julgamento justo no tribunal da ONU para crimes de guerra é inimaginável, pois a mídia internacional já o rotulou como um criminoso de guerra. Em um documento submetido aos juízes do Tribunal Penal Internacional para a ex-Iugoslávia (TPII) e publicano nesta sexta-feira, 1, Karadzic ressaltou que sua chegada em Haia foi acompanhada de muitas irregularidades drásticas.   Veja também: Quem é Radovan Karadzic Cronologia dos conflitos nos Bálcãs  O massacre de Srebrenica  Entenda os conflitos na região   "Que tipo de regularidade pode haver quando tudo acontece em uma atmosfera na qual, independentemente de a verdade poder ser demonstrada nesta sala, ninguém na Terra acredita na possibilidade da minha absolvição?", escreveu Karadzic no documento que o juiz Alphons Orie não permitiu que fosse lido durante seu primeiro comparecimento ao TPII, por abordar questões não pertinentes na primeira audiência oral.   Karadzic apareceu no tribunal de cabelo cortado e barba feita, bem diferente do disfarce que usou durante os 13 anos em que ficou foragido. O servo-bósnio também anunciou que fará sua própria defesa e pediu os 30 dias previstos pela Justiça para prepará-la. Preso na semana passada e levado para o TPII na terça-feira, Karadzic é acusado de 11 crimes de guerra, genocídio, crimes contra a humanidade e considerado culpado pela morte de 8 mil muçulmanos bósnios na cidade de Srebrenica - considerada a maior atrocidade na Europa desde a 2ª Guerra. O juiz marcou a próxima audiência para o dia 29 de agosto.   "A primeira irregularidade que menciono é a caça às bruxas dos meios, que começou na imprensa muçulmana antes do início do conflito armado e que me proclamou como um criminoso de guerra num momento em que as únicas vítimas eram sérvias", afirmou. "Os veículos internacionais continuam essa perseguição, assim agora é inimaginável para muita gente que essa Corte pode me absolver. Acredito que isso coloca em perigo seriamente o juízo da mesma".   Segundo o juiz do TPII, a corte não ouviria as reclamações de Karadzic naquela hora, mas "no momento apropriado". O magistrado sugeriu que ele preenchesse o documento oficial. "Aqui está", gritou Karadzic, segurando as folhas em que listava as "inúmeras irregularidades" de sua prisão.   O ex-líder servo-bósnio foi interrompido pelo juiz Orie quando tentava protestar, alegando que tanto sua prisão quanto seu julgamento violavam um suposto acordo que teria feito com os EUA, em 1996. Segundo Karadzic, sob o pacto, qualquer processo judicial deveria ser anulado se concordasse em deixar a política e não minasse o acordo de paz que pôs fim à Guerra da Bósnia.   O juiz interrompeu Karadzic quando ele começou a falar sobre o suposto pacto com o diplomata americano Richard Holbrooke. Em 1996, logo após o fim da guerra, ele era embaixador dos EUA na ONU e atuava como mediador para o conflito na Bósnia. "Este tribunal, evidentemente, não tem nada a ver com esses supostos acordos que você cita", disse Orie. Holbrooke negou qualquer acordo com Karadzic. "Um trato como esse seria imoral e antiético. Obviamente, ele nunca ocorreu." O Departamento de Estado dos EUA também negou a existência do acordo.

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