Karadzic pede ao tribunal mais tempo para preparar defesa

Ex-líder servo-bósnio não manifesta culpa ou inocência em sua primeira aparição diante do tribunal da ONU

Agências internacionais,

31 de julho de 2008 | 11h21

Depois de mais de uma década de fuga, o ex-líder servo-bósnio Radovan Karadzic compareceu nesta quinta-feira, 31, pela primeira-vez, diante do tribunal da Organização das Nações Unidas (ONU) para responder a acusações de genocídio e crimes contra a humanidade. Com o auxílio de um intérprete, Karadzic comunicou que se encarregará de sua própria defesa durante todo o proceso e negou admitir culpa ou inocência sobre os 11 crimes de guerra de que é acusado.   Veja também: Quem é Radovan Karadzic Cronologia dos conflitos nos Bálcãs  O massacre de Srebrenica  Entenda os conflitos na região   Com o cabelo cortado e a barba feita, Karadzic compareceu diante do Tribunal Penal Internacional para a ex-Iugoslávia (TPII) vestindo um terno negro e gravata para a audiência preliminar de seu julgamento. O ex-líder pediu pelos 30 dias previstos pela Justiça para preparar sua defesa. A próxima audiência será realizada no dia 29 de agosto.   "Não tenho interesse que alguém leia o indiciamento para mim", disse ele. "Prefiro receber o novo indiciamento e ter tempo suficiente para estudá-lo para então fazer minha declaração". O promotor Serge Brammertz confirmou que pretende atualizar o indiciamento, mas não entrou em detalhes.   O juiz Alphons Orie perguntou ao acusado sobre as condições de sua detenção e possíveis necessidades em Haia. "Tenho um conselheiro legal, mas decidi representar a mim mesmo", disse Karadzic, questionado sobre se comparecer "sozinho", sem advogado, era uma "escolha livre". Perguntado sobre se sua família tinha conhecimento de sua prisão, Karadzic disse que não acreditava que alguém desconhecesse que ele estava detido.   Karadzic, visivelmente envelhecido, começou às 11h de Brasília a ouvir as acusações contra ele, e se mostrou tranqüilo. Ele denunciou "irregularidades" em sua detenção. "Em Belgrado, fui detido de forma irregular, fui seqüestrado por civis que não conheço, não leram os meus direitos, não tive nem acesso a um telefone, para que meus amigos não tivessem que me procurar em hospitais".   O juiz Orie leu as onze acusações por crimes de guerra e lesa-humanidade que teriam ocorrido durante a Guerra da Bósnia (1992-1995), entre eles o genocídio em Srebrenica e o cerco a Sarajevo.   Karadzic lembrou sua "opinião" sobre o tribunal que o julga, ao qual nunca concedeu legitimidade - embora não tenha repetido isso dessa vez -, mas afirmou que não tem "queixas" em relação ao tratamento em Haia e sobre o lugar onde permanece detido, já que esteve "em lugares piores", afirmou. Além disso, falou de um trato que teria feito com os EUA em 1996 para se retirar da vida pública em troca de imunidade. Sobre esse ponto, o juiz respondeu: "este Tribunal, evidentemente, não tem nada a ver com esses supostos acordos que coloca com certos Estados".   A acusação de genocídio se refere ao massacre de quase 8 mil muçulmanos em julho de 1995 em Srebrenica, localidade protegida então por "capacetes azuis" holandeses. A ata de acusação contra Karadzic indica que as forças servo-bósnias iniciaram em abril de 1992 uma "campanha de limpeza étnica" contra os muçulmanos bósnios. Karadzic, que esteve foragido da Justiça durante 13 anos, também é acusado de ter ordenado a campanha de terror e os assassinatos, muitos deles realizados com bombardeios indiscriminados e franco-atiradores, contra a população civil de Sarajevo, entre julho de 1991 e novembro de 1995.   Karadzic é acusado também de crimes de guerra por utilizar 284 soldados das forças da ONU como escudos humanos quando o Exército servo-bósnio temia a intervenção das forças da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) contra suas posições.   Matéria atualizada às 13h20.

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