Kremlin diz que investigação sobre aliado de Putin é ataque a presidente

O Kremlin acusou os Estados Unidos nesta quinta-feira de uma verdadeira agressão ao presidente russo, Vladimir Putin, ao iniciar uma investigação de lavagem de dinheiro a respeito de um membro do seu círculo íntimo.

ALEXEI ANISHCHUK, REUTERS

06 de novembro de 2014 | 17h43

O inquérito sobre Gennady Timchenko, cofundador da empresa de comercialização de commodities Gunvor e também alvo de sanções por conta da crise na Ucrânia, deve aumentar a tensão entre Moscou e o Ocidente que já vive seu pior momento desde a Guerra Fria.

O secretário de imprensa de Putin, Dmitry Peskov, declarou a repórteres que o Kremlin desconhece os detalhes do caso "e não pode expressar nada além de espanto".

"O que está acontecendo nas várias 'ações de sanções' é difícil de explicar, e com frequência tem Putin como alvo direto", disse. "Este é mais um exemplo disto, embora eu não saiba o quão confiável é a informação, deste tema quando os ataques à Rússia se dirigem ao líder do país, o próprio Putin."

Putin não comentou o que, segundo documentos e pessoas familiarizadas com o assunto, parece ser uma investigação do Escritório do Procurador-Geral dos EUA, do Distrito Leste de Nova York, sobre Timchenko e a Gunvor envolvendo supostos negócios com petróleo e lavagem de dinheiro.

Timchenko foi um dos primeiros russos a sofrer sanções impostas na esteira da anexação russa da Crimeia, uma península da Ucrânia, em março, e mais tarde devido ao papel mais amplo de Moscou na crise ucraniana.

O Grupo Volga, uma holding que gerencia os bens de Timchenko, declarou em um comunicado que o bilionário não está ciente de qualquer inquérito a seu respeito.

"O senhor Timchenko não recebeu nenhuma notificação dos organismos de aplicação da lei dos EUA (incluindo o Escritório do Procurador-Geral dos EUA ou o Departamento de Justiça) sobre qualquer investigação sobre suas atividades", informou a entidade em uma declaração por escrito.

"O senhor Timchenko sempre conduziu suas atividades comerciais em estrita observância da lei e dos mais altos padrões de ética comercial."

FOGO CRUZADO

Autoridades norte-americanas estão analisando as transações nas quais o Grupo Gunvor, cofundado por Timchenko, supostamente comprou petróleo da estatal russa Rosneft e revendeu a commodity a terceiros, disseram fontes.

De acordo com uma oferta de títulos da Gunvor de 2013, o Escritório do Procurador-Geral no Brooklyn entregou uma intimação à sua subsidiária Castor Americas solicitando documentos relacionados às suas atividades comerciais com petróleo. Os promotores também intimaram três funcionários da Castor e um da Gunvor, informou a circular de oferta.

A Gunvor declarou à Reuters que jamais foi intermediária entre um comprador e um vendedor, “e certamente não para a Rosneft. Isso é factualmente incorreto. Jamais trabalhamos desta maneira, e jamais trabalharemos desta maneira”.

A empresa também disse que não foi notificada sobre qualquer investigação que a envolva e que foi pega em um “fogo cruzado político”.

Em março, horas depois de Washington impor sanções a associados de Putin, a Gunvor, sediada na Suíça, anunciou que Timchenko havia vendido sua participação na firma ao executivo-chefe, Torbjorn Tornqvist, no início daquela semana.

O relatório afirma que as transações são anteriores às sanções dos EUA sobre a Rússia e efetivadas em março contra Timchenko e outros em decorrência da crise na Ucrânia.

Um jornal citou uma fonte segundo a qual o inquérito ainda examina se qualquer parte da fortuna pessoal de Putin está ligada a fundos supostamente ilícitos.

O Tesouro norte-americano disse que o líder tem investimentos na Gunvor e pode ter tido acesso a fundos da empresa, mas tanto a Gunvor quanto o Kremlin negaram veementemente estas alegações.

(Reportagem adicional de Vladimir Soldatkin, Katya Golubkova e Timothy Heritage, em Moscou; de Aruna Viswanatha, em Washington; e de Emily Flitter, em Nova York)

Mais conteúdo sobre:
RUSSIAKREMLINEUA*

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.