Lapouge: Rússia e UE travam uma queda de braço no Cáucaso

Com avanço europeu em ex-soviéticos, Moscou vê surgir um de seus pesadelos preferidos: complexo de 'cerco'

Gilles Lapouge, O Estado de S. Paulo

07 de maio de 2009 | 07h47

O que se passou na terça-feira em Tbilisi, capital da Geórgia, este Estado caucasiano que fazia parte da União Soviética antes de se tornar uma república independente? Desde esse "divórcio", Moscou lança um olhar enciumado, vingativo e desconfiado sobre sua antiga possessão e teme, sobretudo, que a Geórgia tente se aproximar das organizações ocidentais, quer sejam a Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) ou a União Europeia (UE). No ano passado, um incidente de fronteira opôs Moscou a Tbilisi e chegou-se a um fio de uma guerra. O presidente francês Nicolas Sarkozy, que presidia a UE, conseguiu apagar o incêndio.

 

Mas Moscou manteve o dedo no gatilho. Na terça-feira, estourou uma sedição numa base georgiana a 30 quilômetros de Tbilisi. Seria uma nova tentativa dos russos para depor o presidente pró-ocidental da Geórgia, Mikhail Saakashvili, que Putin e Medvedev detestam? Foi essa a interpretação dos georgianos. Os países europeus, embora tenham se mantidos discretos, parecem partilhar dessa análise. Os EUA, porém, foram mais prudentes.

 

Esse incidente misterioso coincidiu com dois acontecimentos significativos. O primeiro foram os exercícios da Otan que começaram ontem na república georgiana. E o segundo que a União Europeia lança hoje em Praga a "parceria oriental" que pretende aproximar a UE e seis antigas repúblicas soviéticas: Ucrânia, Moldávia, Azerbaijão, Armênia, Bielo-Rússia e Geórgia.

 

Não surpreende que Moscou esteja irritado. Os russos veem surgir um de seus pesadelos preferidos: o complexo de "cerco". Eles sempre imaginaram o Ocidente como um polvo cujos tentáculos se enrolavam em torno da pobre Rússia com o objetivo de sufocá-la. O polvo seria, neste momento, a Otan e a UE. E, na terça-feira, Moscou teria simplesmente tentado cortar um de seus tentáculos, a Geórgia.

 

A suscetibilidade do Kremlin a essas questões é tão doentia que as seis antigas repúblicas soviéticas hoje independentes não têm sequer a vontade de participar dessa conferência bancada pela UE. A maioria dos chefes de Estado, sejam eles europeus do Leste ou do Oeste, não comparecerá. Sabem que a conferência é dinamite e que existe o risco de Moscou tomá-la como alvo.

 

Soma-se a isso o fato de que a Ucrânia está dividida entre as ambições de seu presidente, Viktor Yushchenko, e de sua premiê, a bela Yulia Timoshenko. A Moldávia vive uma crise aguda, e a Geórgia acaba de escapar de um incidente confuso. Tudo indica que essa conferência destinada a aproximar os países da UE dos antigos países soviéticos do Leste Europeu não era, com certeza, uma ideia maravilhosa.

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