Líder anglicano defende lei islâmica no Reino Unido

Arcebispo da Cantuária gera críticas por parte do governo e da oposição britânicos

BBC Brasil,

08 de fevereiro de 2008 | 11h21

O líder espiritual da Igreja anglicana gerou polêmica no Reino Unido ao considerar como "inevitável" a adoção de certos aspectos da sharia, a lei islâmica, pela sociedade britânica. Em uma entrevista de rádio veiculada na BBC nesta quinta-feira, 7, o arcebispo de Cantuária, Rowan Williams, disse: "O princípio de que existe apenas uma lei para todos é um pilar da nossa identidade como democracia ocidental. Mas acho que é um equívoco supor que as pessoas não tenham outras crenças que conformam e ditam como elas se comportam na sociedade. A lei precisa levar isto em conta."   Na entrevista à BBC, o arcebispo da Cantuária lamentou que cidadãos muçulmanos tenham de escolher entre "a fidelidade cultural e a fidelidade ao Estado", e sugeriu que disputas conjugais e financeiras em comunidades étnicas possam ser resolvidas através de uma corte islâmica.   "Ninguém em sã consciência gostaria de ver neste país o tipo de desumanidade que às vezes é associada à prática da lei em alguns países islâmicos: as punições extremas, assim como a atitude em relação às mulheres."   As declarações provocaram polêmica e suscitaram críticas tanto do governo britânico quanto da oposição. Representantes da comunidade muçulmana elogiaram os comentários, mas demonstraram cautela.   Entretanto, ele acrescentou, "uma abordagem da lei que simplesmente diga 'só existe uma lei para todos' é um tanto perigosa". Para o arcebispo, o Reino Unido precisa reconhecer que nem todos os seus cidadãos se identificam com o sistema legal britânico. "Existe espaço para encontrar o que seria uma acomodação construtiva com alguns aspectos da lei islâmica, como já existe com alguns aspectos das leis religiosas", declarou o líder anglicano.   Críticas   As declarações provocaram polêmica e colocaram o arcebispo sob críticas nesta sexta-feira. O porta-voz do primeiro-ministro, Gordon Brown, disse que o chefe de governo britânico "acredita que as leis britânicas devem se basear nos valores britânicos". Já o ministro de Cultura, Andy Burnham, disse que a absorção da lei islâmica criaria um "caos social" no país.   E até a responsável da oposição por acompanhar assuntos comunitários, Baronesa Warsi, criticou o arcebispo: "O dr. Williams parece sugerir que deveria haver dois sistemas legais funcionando lado a lado, quase em paralelo, e que as pessoas tenham a possibilidade de optar por um ou por outro. Isso é inaceitável".   Pela lei inglesa, cidadãos podem encontrar sua própria maneira de resolver disputas, desde que ambos os lados concordem com o processo e com um mediador. As cortes islâmicas e judias ortodoxas que já existem no Reino Unido entram nesta categoria.   A sharia é um código legal e social cuja finalidade é orientar o comportamento de muçulmanos. Mas as punições extremas adotadas em alguns países islâmicos geram polêmica nos países ocidentais.   O diretor da Fundação Ramadã, Mohammed Shafiq, elogiou as declarações do arcebispo anglicano: "Acho que muçulmanos se sentiriam bastante confortáveis se o governo permitisse que seus assuntos civis fossem resolvidos segundo sua fé".   Já o porta-voz do Conselho Muçulmano do Reino Unido, Ibrahim Mogra, comentou: "Estamos falando da aplicação de apenas um pequeno aspecto da sharia para famílias muçulmanas, em assuntos como casamento, divórcio, herança, custódia das crianças e daí em diante". "Vamos debater o assunto. É muito complexo. Não é tão simples quanto dizer que teremos um sistema legal aqui."     Todos os direitos reservados. É proibido todo tipo de reprodução sem autorização por escrito da BBC.

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