Líderes do sul da Europa buscam aliado em francês Hollande

A vitória de François Hollande na eleição francesa dá aos líderes dos países em dificuldade do sul da Europa um novo aliado em seus esforços para moderar a busca pela austeridade rígida incentivada pela Alemanha.

FIONA ORTIZ E JAMES MACKENZIE, REUTERS

07 Maio 2012 | 12h13

A eleição do socialista quebra a dupla de centro-direita formada pelo seu antecessor, Nicolas Sarkozy, e pela alemã Angela Merkel, cujo pacto fiscal europeu exigia cortes de gastos profundos na Itália, Espanha, Portugal e Grécia.

Os líderes do sul europeu --incluindo aqueles de centro-direita que podem ter publicamente preferido Sarkozy-- vão comemorar a perspectiva de mais tempo para cumprir as metas de déficit e o apoio a propostas como os bônus da zona do euro e gastos de estímulo coordenados.

Em sua própria eleição no domingo, os eleitores gregos abandonaram os partidos tradicionais de esquerda e direita que tinham apoiado a austeridade, em outro duro golpe para as políticas da dupla Sarkozy-Merkel, que tinham se tornado o consenso europeu.

"Os resultados das eleições na França e Grécia impõem a necessidade de uma reflexão sobre as políticas europeias", afirmou o primeiro-ministro tecnocrata da Itália, Mario Monti, em um comunicado depois de falar com Hollande, Merkel e o britânico David Cameron.

"Uma política de finanças públicas responsável é uma condição necessária, mas certamente não suficiente para o objetivo fundamental: um crescimento sustentável que possa criar empregos e produzir equidade social", disse ele. "Por esta razão, é fundamental que a Europa adote urgentemente políticas concretas para o crescimento."

A divisão norte-sul pode ser mais forte no sul da Europa do que as tradicionais diferenças de esquerda x direita. O primeiro-ministro de centro-direita da Espanha, Mariano Rajoy, poderia supostamente preferir o colega conservador Sarkozy, mas ainda assim vai ganhar com a eleição de um socialista em Paris.

"Rajoy ganhou na loteria ontem, de uma forma. Economicamente estamos vivendo semana a semana, por isso, se pode haver um certo relaxamento dos cortes de gastos, seria ótimo para ele e para Portugal", afirmou Narciso Michavila, presidente da consultoria e empresa de pesquisas GAD3 em Madri.

Um membro do parlamento do Partido Popular de Rajoy disse à Reuters, sob condição de anonimato, que a vitória do socialista francês era um alívio para a Espanha.

Miguel Murado, um analista independente em Madri, chamou de "ironia" que os líderes conservadores da Espanha estariam secretamente saudando o sucesso de um socialista na França.

"A razão para isso é óbvia: espera-se que isso ajude a Espanha a convencer todos os países de que talvez o ajuste no orçamento e no déficit não deva ser tão rápido", disse ele, embora tenha advertido que uma repercussão contra os partidos de centro-direita na Europa poderia deixar Rajoy isolado no início de seu mandato de quatro anos.

Os políticos de centro-direita da Itália também pareceram prontos para cruzar o espectro ideológico e abraçar Hollande. Os conservadores italianos têm procurado títulos de dívida em euros --emitidos para a zona do euro e implicitamente garantidos por países como a Alemanha-- e estavam em desacordo com Sarkozy e Merkel.

"Acho que há mais chance de que a Itália possa desempenhar um papel em reequilibrar as políticas de austeridade visando o crescimento e desenvolvimento", disse o ex-chanceler Franco Frattini em uma entrevista ao jornal Corriere della Sera.

"A Alemanha não pode continuar a descartar os bônus em euro e excluir os gastos com investimento dos cálculos do déficit nacional", afirmou.

O desemprego entre os jovens em grande parte do sul da Europa está em mais de 50 por cento e a ira pública está crescendo em relação às medidas de austeridade extremas, como na Espanha, onde os governos centrais e regionais estão cortando 40 bilhões em gastos este ano e também aumentando impostos.

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