Francois Mori / AFP
Francois Mori / AFP

No centenário da 1ª Guerra, Macron alerta para perigos do nacionalismo

Anfitrião de uma celebração com mais de 70 líderes, presidente francês faz crítica indireta ao slogan ‘America First’, de Donald Trump

Andrei Netto, Correspondente / Paris, O Estado de S.Paulo

11 de novembro de 2018 | 09h27
Atualizado 12 de novembro de 2018 | 12h59

O presidente francês, Emmanuel Macron, advertiu neste domingo para o risco do nacionalismo e criticou de forma indireta o slogan “America First”, do americano Donald Trump, ao reprovar o egoísmo de países “que colocam seus interesses à frente, pouco importando os demais”. A declaração foi feita diante do presidente dos EUA e de mais de 70 líderes na manhã de hoje, na celebração dos 100 anos do armistício da 1.ª Guerra, um dos conflitos mais mortíferos da história. 

A solenidade no túmulo ao soldado desconhecido, no Arco do Triunfo, no centro de Paris, foi marcada pela leitura, por jovens de diferentes línguas, de cartas escritas por combatentes durante a guerra. 

Em seu discurso, Macron voltou a defender um mundo multilateral e surpreendeu ao elogiar o patriotismo, contra a “ameaça” do nacionalismo. “O patriotismo é o exato contrário do nacionalismo”, disse o francês, pedindo aos presentes que coloquem “a paz mais alto do que tudo”.

A seguir, ainda na presença de Trump, o francês pediu respeito aos tratados climáticos e à luta contra a pobreza. “Juntos, enfrentemos as ameaças que são as mudanças climáticas, a pobreza, a ignorância.”

Os demais líderes políticos não discursaram. Eles se encontraram alguns minutos depois em um almoço no Palácio do Eliseu e, horas mais tarde, no Fórum da Paz – à exceção de Trump. Neste evento, destinado a debater a governança mundial, o tema central foi o multiculturalismo, apontado como um remédio contra o nacionalismo. “Estamos fragilizados pelo retorno das paixões tristes, o nacionalismo, o racismo, o antissemitismo, o extremismo, que colocam em questão o que nossos povos esperam”, afirmou Macron.

A alemã Angela Merkel se disse “inquieta” por “estar de novo frente ao nacionalismo”. “Nós vemos que a cooperação internacional, um equilíbrio pacífico entre os interesses de uns e de outros, e mesmo o projeto europeu de paz, são de novo questionados”, completou a chanceler.

Secretário-geral da Organização das Nações Unidas (ONU), António Guterres, pediu mais cooperação entre os países. “Muitos elementos de hoje me parecem remeter ao início do século 20 e aos anos 30, alimentando o temor de uma engrenagem invisível”, disse.

Estas advertências foram feitas na ausência de Trump, que havia alterado sua agenda para evitar o Fórum da Paz e visitar, sozinho, no mesmo momento, um cemitério americano na cidade de Suresnes, onde prestou homenagem “aos corajosos americanos que deram seu último suspiro”. No dia anterior ele havia cancelado uma visita semelhante em razão da chuva fina, recebendo críticas nos EUA.

No fim da tarde, a presença do presidente americano na capital francesa provocou um protesto na Praça da República, com cerca de 1,5 mil pessoas. 

 A lista dos líderes presentes em Paris incluiu ainda Vladimir Putin, da Rússia, Binyamin Netanyahu, de Israel, Recep Tayyip Erdogan, da Turquia, e Justin Trudeau, do Canadá. A presença dos chefes de Estado mobilizou mais de 10 mil agentes de polícia e dos serviços secretos em Paris e nos arredores – o que não impediu um trio de mulheres do movimento Femen de quebrar a segurança e protestar contra Trump pela manhã.

 Em outras capitais do continente, líderes políticos também prestaram homenagem aos 10 milhões de mortos e 20 milhões de feridos no conflito.

Brasil

O governo brasileiro não enviou representante de Brasília para a maior cerimônia diplomática do ano no mundo. Convidado de honra da França para a cerimônia, por ter enviado tropas para lutar ao lado dos aliados – embora não tenham participado dos combates –, o Brasil não foi representado nem pelo presidente, Michel Temer, nem pelo chanceler, Aloysio Nunes Ferreira, nas solenidades realizadas neste fim de semana na capital francesa. O governo brasileiro foi representado apenas pelo seu embaixador em Paris.

 


 

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.