Longa peregrinação por futuro na Grã-Bretanha é diária

Jovens fazem percurso de até 3 horas de caminhada na tentativa de driblar barreiras e assédio da polícia

Andrei Netto, enviado especial, O Estado de S. Paulo

02 de agosto de 2015 | 03h00

CALAIS - As longas horas de expectativa se repetem dia após dia no campo de “new jungle”, em Calais. Ao longo da manhã e de toda a tarde, milhares de jovens aguardam o início da noite para deixar o acampamento e tomar em centenas de pequenos grupos o caminho do Eurotúnel. O percurso de sete quilômetros poderia ser realizado por estradas da região ou por dentro do perímetro urbano, mas a presença ostensiva da polícia é dissuasiva. Para evitá-la, os estrangeiros enfrentam até seis horas de caminhada na peregrinação diária para tentar chegar à Grã-Bretanha.

Omar Mohamed, de 32 anos, farmacêutico sírio que estudou oito anos na Rússia e agora tenta a sorte na Europa Ocidental, é um dos que realizam a caminhada, apesar da fadiga das longas noites em claro. “Não podemos tomar o caminho mais rápido, porque a polícia nos bloqueia. Levamos três horas caminhando para ir, outras três horas para voltar, e ficamos lá duas, três, quatro, cinco horas à espera de uma oportunidade para embarcar em um dos trens para a Grã-Bretanha”, conta.

Esse movimento de massa acontece entre as imediações do Porto de Calais e a estação de trens da passagem subterrânea pelo Canal da Mancha. O trajeto significa estafa e estresse permanente, em especial pela perspectiva de choque com a polícia e com a segurança do sítio do túnel. Mas, acima de tudo, significa a esperança de concluir a caminhada iniciada no Oriente Médio ou na África.

Esse é, por exemplo, o sentimento de Béniamin Mabte, de 26 anos. Eritreu em fuga da tirania do ditador Isaias Afwerki, no poder há 24 anos, o jovem arriscou e quase perdeu a vida no Mediterrâneo antes de alcançar o território europeu. Agora, não aceita desistir do sonho. “Quando estávamos no mar, o motor do nosso barco parou depois de 19 horas navegando. Ficamos à deriva e afundando. Em uma hora estaríamos todos mortos, mas fomos salvos pela Guarda Costeira da Itália”, conta. “Deus nos protegeu. Cruzamos desertos, fugimos da guerra e escapamos do mar. Agora é a hora de passar para a Grã-Bretanha”, diz Mabte, que tentou invadir o Eurotúnel três vezes nas três últimas noites. Em uma delas, viu a morte do jovem sudanês atropelado quando já havia conseguido entrar na área privativa. “Eu estava perto e fiquei muito triste. Mas o que ele poderia fazer? Estamos todos aqui sabendo que podemos morrer. Mas estamos tentando a sorte.” 

Além dos mortos, o jogo de gato e rato deixa um exército de feridos a cada dia, atendidos por voluntários da ONG Médicos do Mundo, que mantém consultórios improvisados na “new jungle”. “Atendemos dois grandes grupos de pacientes todos os dias: os que estão doentes pelas condições sanitárias do campo e os feridos por traumas, fraturas, cortes profundos e mutilações ocorridas quando tentam cruzar as barreiras do Eurotúnel”, diz o médico voluntário Jean-François Patry.


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