Foto: YVES HERMAN|REUTERS
Foto: YVES HERMAN|REUTERS

Ato em Barcelona reúne 300 mil pessoas pela unidade da Espanha

Convocada por setores da sociedade catalã contrários à independência, manifestação de apoio à dissolução do governo regional pede prisão de líder separatista, defende nomeação de interventora para a crise e enche ruas da cidade de bandeiras espanholas

Andrei Netto, Enviado Especial / Barcelona, O Estado de S.Paulo

29 de outubro de 2017 | 10h17
Atualizado 29 de outubro de 2017 | 20h30

BARCELONA-Centenas de milhares de espanhóis foram às ruas de Barcelona neste domingo, 29, para manifestar apoio à intervenção do governo da Espanha para impedir a independência da Catalunha, anunciada na última sexta-feira.

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A manifestação aconteceu no centro da capital, no momento em que o governador deposto, Carles Puigdemont, e seus assessores vêm convocando a opinião pública a 'resistir' à tutela imposta por Madri até 21 de dezembro, quando serão realizadas novas eleições regionais.

Segundo a polícia catalã, 300 mil pessoas se manifestaram nesse domingo. Já os organizadores reivindicaram a presença de 1,1 milhão no ato. Entre os gritos de ordem, um dos entoados foi "Puigdemont na prisão!", em alusão à possibilidade de prisão do governador deposto por crime de rebelião contra a ordem constitucional.

O protesto foi uma nova demonstração de força dos unionistas, depois da primeira mobilização, realizada após o plebiscito inconstitucional de 1º de outubro, que resultou na vitória dos independentistas, com 90% dos votos, mas com baixa participação, de 42%.

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Um dos discursos mais aplaudidos foi o do ex-presidente do Parlamento Europeu, o catalão socialista Josep Borrell, que defendeu a intervenção de Madri e definiu a crise como “momento dramático da história da Espanha”. “Eu também sou o povo da Catalunha e não reconheço o direito que falem em meu nome”, afirmou.

A convocação para o protesto foi feita pela ONG Sociedade Civil Catalã, unionista, em resposta à mobilização dos independentistas na Praça Saint Jaume, em Barcelona, em favor da secessão, na sexta-feira. 

Portando bandeiras da Espanha, os manifestantes expressaram apoio ao governo provisório de Soraya Saenz de Santamaría, vice-primeira-ministra espanhola nomeada pelo premiê Mariano Rajoy para administrar a Catalunha até as eleições.

Entre os manifestantes estavam os advogados Marta Ripoll e Eugénio Egea, que demonstraram total apoio à adoção pelo governo de Rajoy do Artigo 155 da Constituição, que estabelece os meios para a intervenção de Madri em governos regionais.

"Nós somos a maioria. A soberania do território espanhol está nas mãos de todos os espanhóis, como está registrado na Constituição. Uma minoria regional não pode sequestrar o Parlamento da Catalunha, argumentando um direito de autodeterminação que nesse caso não existe", disse Marta, catalã de Barcelona. "Vamos restaurar a legalidade, mas não será sem traumas. A sociedade está quebrada. O que aconteceu aqui é de extrema gravidade, e vai levar uma geração para voltar à normalidade."

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Para Eugénio Egea, a sociedade está dividida e cabe aos meios políticos impedir que algo ainda mais grave aconteça. 'Esperamos que com o tempo os políticos negociem uma saída, caso contrário teremos um enfrentamento grave', afirmou.

Sob o som de helicópteros que acompanhavam a manifestação e desfilando com bandeiras da Espanha amarradas aos ombros pela Avenida Laietana, no centro de Barcelona, Juan Ferrera, operário da construção civil nascido em Extremadura, mas radicado na Catalunha há mais de 20 anos, levou a família para expressar sua indignação com a declaração unilateral de independência.

"Não estamos de acordo com as decisões tomadas pela administração da Catalunha. A independência teria de acontecer com maioria absoluta, caso contrário não é constitucional", afirmou Ferrera, completado pela filha, Cintia Ferrera, 23 anos: "Se não é dentro da legalidade, não nos representa. Os jovens independentistas não são conscientes do que se trata. São marionetes, porque defendem algo que não sabem ao certo o que é."

Embora confiantes na intervenção de Madri na Catalunha, entre os unionistas a incerteza ainda é muito presente. "Nós, mesmo os catalães, estamos muito cansados do doutrinamento que está acontecendo nas escolas há muitos anos. É hora de parar com isso", disse Jordí, catalão que preferiu não informar seu sobrenome. "Não sei o que vai acontecer, porque está muito complicado."

Para Joan, outro catalão contrário à independência, a Espanha precisa retornar ao estado de direito, mas o cenário é de instabilidade. "Os independentistas vão resistir e vão atuar em paralelo. Já realizaram o plebiscito ilegal e vão usar o mesmo método daqui para a frente", opinou. "Mas vão acabar na prisão, porque é lá que precisam estar", sentenciou.

Na sexta-feira à noite, mais de 150 autoridades do governo catalão, incluindo Puigdemont, foram destituídos por ordem de Madri, que acionou o Artigo 155 para impedir a perda de controle da região secessionista. Entre os depostos estão Josep Lluis Trapero, o chefe da polícia da Catalunha, a Mossos d’Esquadra, acusado de rebelião por não ter cumprido ordens para impedir a abertura de seções eleitorais em 1º de outubro.

Ao final da manifestação, Rajoy publicou fotos do dia no Twitter com duas mensagens: “Concórdia, convivência e bom senso, democracia e diálogo dentro da lei. #TodosSomosCatalunha”. O primeiro-ministro lembrou ainda que convocou eleições “livres e com garantias” para dezembro. “Peço tranquilidade a todos os espanhóis. O Estado de Direito restaurará a legalidade na Catalunha.”

Nos meios políticos de Madri, a única manifestação divergente foi a da tendência anticapitalista do Podemos (esquerda radical), que publicou nota em separado do partido reconhecendo a “República Catalã”. Outros setores da legenda criticaram a iniciativa.

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