Luciano Spinelli/Estadão
Luciano Spinelli/Estadão

Marcha por tolerância reúne 3,7 milhões de pessoas em Paris

Mais de 50 chefes de Estado, alguns com histórico autoritário, vão a ato na capital da França

ANDREI NETTO, CORRESPONDENTE / PARIS, O Estado de S. Paulo

11 de janeiro de 2015 | 20h35

Cerca de 3,7 milhões de manifestantes foram ontem às ruas da França, em um ato histórico pela tolerância e em memória das 17 vítimas dos atentados da semana passada. As passeatas, que se reproduziram nas principais capitais da Europa, foram a maior mobilização da opinião pública na história do país. 

Pacífica, a massa reuniu chefes de Estado e de governo de 50 países, além de anônimos ateus, cristãos, muçulmanos e judeus que empunharam cartazes e bandeiras em defesa da liberdade de expressão. 

A manifestação foi convocada por partidos de esquerda na quarta-feira, dia do primeiro atentado em Paris, contra a redação do jornal satírico Charlie Hebdo. Ao longo da semana, o ato se tornou multipartidário, multiétnico e ecumênico, atendendo ao apelo à unidade nacional feito pelo presidente da França, François Hollande. Pela manhã, o chefe de Estado voltou a convocar a população às ruas, ao afirmar: “Hoje, Paris é a capital do mundo”. Em diversos momentos, a multidão entoou a Marselhesa, o hino nacional, assim como gritos de “Charlie! Charlie!”.

Norah Ouddah, 39 anos, funcionária de uma empresa de seguros, preferiu portar um cartaz em que se lia “Eu sou Ahmed”, em homenagem ao policial executado em frente a câmeras. “Venho como francesa e muçulmana, e em solidariedade a todos os franceses, para dizer que não, que os terroristas não nos assustam”, afirmou.

Outra característica da passeata foi seu caráter internacional. Embora o hino fosse entoado e as cores da França aparecessem em esmagadora maioria, bandeiras de muitos países tremularam entre as praças da República e Nação, durante o cortejo. Uma das mais frequentes era a bandeira da Ucrânia. “Nós estamos aqui, numerosos, porque nos sentimos preocupados com a liberdade de consciência e de expressão”, afirmou Bogdan Mytrowytch, 57 anos, funcionário público franco-ucraniano.

Outra presença marcante foi de latino-americanos. Bandeiras do Brasil, do Chile e do Uruguai podiam ser vistas ao longe. “Vim representar o Brasil nessa marcha pela república. A França deu os valores de liberdade e igualdade para o mundo e eu penso que é preciso defender esses valores”, disse o estudante de engenharia brasileiro Iuri Gomes de Abreu, de 24 anos.

Outro a ressaltar os valores do país foi o colombiano Carlos Marulanda, de 51 anos. “Estou aqui porque amo a liberdade, a fraternidade, a igualdade e a paz”, disse pastor de uma igreja evangélica cristã, que completou: “E eu amo a França”.

A passeata de Paris também foi uma oportunidade para demonstrar a solidariedade entre líderes políticos. Chefes de Estado e de governo vieram a Paris e desfilaram com Hollande. Ao seu lado estavam a chanceler da Alemanha, Angela Merkel, e o presidente do Mali, Ibrahim Boubacar Keita. Ainda na primeira fila figuravam os premiês da Grã-Bretanha, David Cameron, da Itália, Matteo Renzi, da Espanha, Mariano Rajoy, entre outros. O primeiro-ministro da Turquia, Ahmet Davutoglu, compareceu à manifestação – seu governo é o que mais prende jornalistas no mundo.

Outro destaque foi a presença de Mahmoud Abbas, da Autoridade Palestina, e de Binyamin Netanyahu, primeiro-ministro de Israel. “A presença do chefe da Autoridade Palestina e do premiê de Israel é um belo símbolo”, ressaltou o premiê da França, Manuel Valls, horas mais tarde, em cerimônia realizada na Grande Sinagoga da Vitória, em Paris, em homenagem aos mortos do atentado antissemita de Porte de Vincennes.

Enquanto a França e o mundo desfilavam na capital, Marine Le Pen, líder do partido de extrema direita Frente Nacional, desfilou com seu pai, Jean-Marie Le Pen, e com militantes na cidade de Beaucaire, a 700 quilômetros de Paris.

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