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Medvedev continua enigma para analistas e adversários

Após um ano no cargo, presidente russo ainda ensaia distanciamento do premiê Vladimir Putin

Clifford J. Levy, The New York Times

06 de maio de 2009 | 08h10

O ex-presidente russo e atual premiê, Vladimir Putin, costumava chamar os liberais e líderes de grupos de direitos humanos de chacais em busca de esmolas nas embaixadas estrangeiras. Dmitri Medvedev, seu sucessor, recentemente reuniu-se com alguns desses líderes e elogiou o trabalho deles, afirmando que eles têm sido tratados de forma injusta. A situação, porém, não mudou. Não foi implementada nenhuma política nova.

Um ano depois de se tornar presidente da Rússia, Medvedev - que completa amanhã um ano no cargo - continua um enigma e a crise financeira só aprofundou as dúvidas quanto a suas intenções. Seria ele um líder amável para os radicais do Kremlin, uma marionete que faz comentários tranquilizadores e nada mais? Ou seria um autêntico reformador, que aos poucos vai afastando a Rússia das práticas mais opressivas da época de Putin?

Ultimamente, Medvedev parece estar se empenhando para mostrar sua suposta inclinação liberal e se distinguir do ex-presidente. Primeiro, concedeu uma entrevista a um jornal que se opõe ferozmente ao Kremlin, o Novaya Gazeta, que teve jornalistas assassinados e perseguidos nos últimos anos.

Depois, em no dia 15, reuniu-se com com grupos de defesa dos direitos humanos, que há muito tempo se queixam de perseguição pelo governo e hoje atuam em um clima de tamanha intimidação que alguns dos seus líderes até contrataram guarda-costas.

"Não é segredo que há uma percepção muito distorcida das atividades de direitos humanos em nosso país", disse Medvedev em uma espécie de pedido de desculpas que raramente se ouviu de Putin.

Apesar de suas declarações terem sido alentadoras para os grupos, elas não vieram acompanhadas por nenhum tipo de ação. Em geral, ainda é difícil saber como o Kremlin exerce o poder no governo Medvedev.

A recente eleição para a prefeitura de Sochi, cidade que vai hospedar as Olimpíadas de Inverno de 2014, parecer ter sido orquestrada com base nas mesmas técnicas usadas na era Putin. Os candidatos de oposição foram retirados da disputa ou submetidos a uma campanha hostil pela TV. O favorito do Kremlin obteve 77% dos votos, sem ter quase feito campanha.

"No momento, Medvedev usa belas palavras", disse Alexei Simonov, presidente da Glasnost Defense Foundation, de Moscou, que defende a liberdade de imprensa e participou da reunião com Medvedev. "Ele as usa muito, mas há uma completa falta de ações."

Os comentários de Medvedev são regularmente analisados para ver se há algum sinal de discórdia com Putin - ainda considerado o líder supremo do Kremlin - e, se é possível, vislumbrar alguma crítica ao estilo do ex-presidente. Mas o mais provável é que Putin preferiu deixar Medvedev adotar seu próprio tom, desde que não mude a rota do governo.

Além do debate sobre a sinceridade de Medvedev, há uma outra pergunta: teria ele poder para implementar mudanças significativas no campo das liberdades civis, pluralismo político e matérias relacionadas, especialmente durante a crise financeira?

Na verdade, não está de todo claro que a maioria dos russos esteja inquieta com os gestos de Medvedev. A maior parte da população está mais preocupada com o que o governo está fazendo para preservar a estabilidade e os vigorosos ganhos econômicos da última década.

Além disso, na era Putin, o governo empreendeu uma campanha sistemática contra grupos de defesa de direitos humanos e liberais a ponto de eles ficarem amplamente desacreditados. Os liberais dizem que não se deram por vencidos, mas parecem cada vez mais desencorajados.

Simonov lembra que, ao deixar a reunião com Medvedev, deparou com um grupo de executivos que chegava para uma reunião com o governo. Eram os diretores das redes de TV nacionais, que estão sob rígido controle estatal. Simonov então percebeu que, se ele não era uma visita frequente do Kremlin, esses executivos certamente eram.

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