Milhares pedem autonomia para Catalunha em meio à crise espanhola

Centenas de milhares de catalães saíram na terça-feira às ruas de Barcelona, numa inédita demonstração de apoio à autonomia da região em relação à Espanha.

ANDRÉS GONZÁLEZ, Reuters

11 de setembro de 2012 | 21h51

A crise econômica espanhola, acompanhada de um forte desemprego, tem alimentado uma febre separatista na Catalunha, uma região relativamente próspera, mas cujos líderes se consideram explorados pelo governo central.

A multidão agitou as bandeiras listradas vermelhas e amarelas da Catalunha - uma das mais antigas ainda em uso na Europa - e cantou o hino catalão durante as celebrações da chamada Diada, um feriado regional que marca a conquista da Catalunha pelo rei espanhol Felipe 5o, em 1714, após 13 meses de cerco a Barcelona.

O governo espanhol avaliou a multidão em 600 mil pessoas. A polícia catalã estimou até 1,5 milhão.

Os manifestantes disseram que o tamanho da passeata - inflada por pessoas vindas de toda a Catalunha para a sua capital nesse dia ensolarado - obrigará Madri a pelo menos escutar sua mensagem.

"Esse é um golpe para o governo. Gente como eu veio de todo lugar. Não acho que eles estivessem esperando algo tão grande", disse Teresa Cabanes, 53 anos, moradora de Santa Coloma de Gramanet, nos arredores de Barcelona. "Sentimos que o governo central está nos enganando. Nós, catalães, estamos dando muito dinheiro para a Espanha."

Entre os cartazes levados à manifestação se liam frases como "Não ao Quarto Reich", "Não à Europa", "Independência agora!" e "Catalunha: o novo Estado europeu".

As redes de telefonia celular ficaram congestionadas e saíram do ar durante horas. Muitos manifestantes disseram que essa foi a maior Diada de que se tem lembrança nas últimas décadas.

O protesto terminou já de noite, sem incidentes e sem detidos, segundo a polícia.

A demonstração de irritação contra Madri e de orgulho regional virão a calhar para os líderes regionais, que tentam obrigar o governo nacional a lhes conceder mais autonomia sobre os impostos recolhidos na Catalunha.

A Catalunha, que tem um idioma oficial próprio paralelo ao castelhano, concentra 15 por cento da população espanhola, e 20 por cento do seu PIB. Com a crise, muitos catalães se queixam de que estariam entregando a Madri mais do que recebem em serviços públicos - economistas calculam essa disparidade em até 12 bilhões de euros por ano.

O governo regional já precisou demitir funcionários públicos e restringir serviços, e seu presidente, Artur Más, insinuou que vai pleitear a independência caso não receba mais autonomia fiscal.

"Se não chegarmos a um acordo financeiro, o caminho para a liberdade da Catalunha está aberto", repetiu ele na terça-feira. Más não foi à manifestação, mas disse apoiá-la.

Em julho, uma pesquisa feita pela Generalitat (governo regional) mostrou que pela primeira vez a maioria dos catalães está favorável à independência.

O primeiro-ministro espanhol, o conservador Mariano Rajoy, disse na segunda-feira que "a Catalunha tem sérios problemas de déficit e desemprego, e este não é o momento de confusão, de disputas e de polêmicas".

(Reportagem adicional de Nigel Davies)

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