Morre Karl Diehl, industrial que colaborou com o nazismo

Alemão, que morreu aos 100 anos, utilizou trabalhadores presos nos campos de concentração em suas fábricas

Efe,

20 de janeiro de 2008 | 17h58

O industrial alemão Karl Diehl, que colaborou com o nazismo e utilizou trabalhadores forçados e presos nos campos de concentração em suas fábricas, morreu no sábado, 19, aos 100 anos, anunciou neste domingo, 20, sua empresa em comunicado oficial.   "Era uma personalidade empresarial magnífica" e exemplo de empresário patriota, afirmou em nota o presidente do Governo da Baviera, o social-cristão (CSU) Günther Beckstein, que em nenhum momento fez referência ao polêmico papel de Diehl durante o nazismo.   O comunicado divulgado por sua empresa ressalta que "Karl Diehl soube gerir a herança de seus pais em tempos difíceis e transformá-la em uma empresa familiar de grande sucesso", que hoje emprega 11 mil pessoas, com um volume de negócios de 2,2 bilhões de euros e está entre as maiores companhias de armamentos da Alemanha.   No entanto, Karl Diehl sempre teve que lidar com as sombras de seu passado, já que entrou em 1933 para o Partido Nacional-Socialista Alemão (NSDAP, em alemão) coincidindo com a chegada de Adolf Hitler ao poder.   Sua empresa teve caráter estratégico durante a Segunda Guerra Mundial ao produzir milhões de detonadores e cartuchos de munição.   Na época, suas fábricas fizeram uso de trabalho forçado, prisioneiros de guerra e presos de campos de concentração, em cujos terrenos chegou a montar feitorias para a produção de temporizadores, entre outros artigos.   Após o fim da guerra, alguns sobreviventes fizeram acusações graves de maus tratos contra Diehl, ao relatar que os trabalhadores tinham as mãos marteladas quando paravam seu trabalho e só podiam ir ao banheiro duas vezes em jornadas trabalhistas esgotantes.   Diehl - que herdou a direção do grupo industrial de seu pai em 1938 e cedeu a mesma a seus três filhos homens - buscou após a guerra o diálogo com os sobreviventes e indenizou-os voluntariamente.   Para justificar sua colaboração com os nazistas, ele afirmou que não quis ver ameaçados sua empresa, família e trabalhadores durante a época do nazismo. Seu filho Werner chegou a viajar para Israel para pedir perdão pessoalmente em nome da família às suas vítimas.   O já lendário empresário alemão chegou inclusive a encarregar os historiadores Wolfgang Benz e Gregor Schöllgen de elaborar um amplo relatório sobre a história de sua empresa durante o período nazista.   Schöllgen chegou à conclusão que Diehl, "da mesma forma que a maioria dos empresários em sua situação, agiu pragmaticamente", enquanto Benz afirmou que os trabalhadores forçados foram mandados a ele pelos nazistas, mas que o industrial não teve culpa.   Com o fim da guerra, Karl Diehl conseguiu reconstruir seu grupo industrial, arruinado desde o colapso do nazismo, e trabalhou ininterruptamente para isso até há cinco anos, quando deixou seu cargo de dirigente do Conselho de Administração, apesar de ter continuado como presidente de honra até sua morte.   Além disso, o industrial era considerado um generoso mecenas que, entre outras coisas, criou uma fundação para ajudar os necessitados e ex-funcionários, além de apoiar economicamente vários projetos sociais e culturais, principalmente em sua cidade de Nuremberg, que em 1997 nomeou-o filho predileto.

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