Na Rússia, Hollande deve pressionar Putin por direitos humanos

O presidente da França, François Hollande, citará preocupações com a situação dos direitos humanos na Rússia durante encontro nesta quinta-feira com o homólogo Vladimir Putin, mas buscará minimizar diferenças que possam abalar as relações comerciais entre os dois países.

JULIEN PONTHUS, Reuters

28 de fevereiro de 2013 | 12h51

Hollande, que iniciou visita de 24 horas a Moscou concedendo uma entrevista de rádio, espera alcançar um equilíbrio entre a defesa enfática dos direitos humanos e seu desejo de reforçar os laços econômicos com a Rússia, o maior país do mundo em territorialidade.

Um encontro anterior entre os dois presidentes, ocorrido em junho em Paris, teve momentos de tensão, ao contrário do que acontecia nas afáveis reuniões de Putin com os antecessores de Hollande, os conservadores Nicolas Sarkozy e Jacques Chirac.

Assessores de ambos os lados querem evitar confrontos diretos sobre os direitos humanos, como os que marcaram uma viagem da chanceler (primeira-ministra) alemã, Angela Merkel, a Moscou no ano passado -- ocasião em que ela acusou o Kremlin de calar dissidentes.

"Vamos discutir isso com o presidente Putin. Eu gostaria de não adotar uma abordagem provocativa", disse o presidente francês à rádio liberal de Moscou Ekho Moskvy. A entrevista foi apresentada dublada em russo.

"Questões de democracia e direitos humanos são tão importantes quanto outros aspectos da nossa cooperação."

Ele disse que Paris sempre busca abordar esse tipo de questão com outros países de forma amistosa, e descreveu Rússia e França como sendo dois velhos aliados unidos por laços históricos e culturais.

Hollande está sob pressão na França para abordar questões como a situação de Mikhail Khodorkovsky, crítico de Putin que já foi o homem mais rico do país, e que agora cumpre pena de 13 anos de prisão por fraude e evasão fiscal. Adversários do Kremlin dizem que ele foi vítima de uma perseguição política.

Hollande disse que também vai discutir com Putin conflitos externos como os do Afeganistão e Síria, e reiterou que Paris está respeitando o embargo armamentista europeu ao país árabe -- embora ele defenda uma suspensão gradual dessa sanção.

O governo russo está entre os principais aliados do regime sírio, ao passo que a França apoia os rebeldes que há dois anos tentam derrubá-lo.

Num momento em que a economia francesa se aproxima da recessão, com fraquíssima demanda interna, Hollande precisa de todo o apoio externo que puder para estimular o crescimento.

Empresas russas têm investimentos de cerca de 1 bilhão de euros na França, mas a injeção de capital no sentido contrário é cerca de 12 vezes maior. É um desequilíbrio que Paris gostaria de corrigir.

Mas muita coisa --da questão síria à cidadania russa concedida ao ator francês Gerard Depardieu por questões tributárias-- podem resultar em atritos. No fim de semana, Depardieu visitou a região russa da Chechênia, onde ativistas acusam as forças de segurança de cometerem execuções extrajudiciais e outros abusos.

Na entrevista à Ekho Moskvy, Hollande evitou falar da situação de Depardieu, um dos mais conhecidos artistas franceses, que deixou o país para fugir de um novo imposto sobre fortunas.

"Tenho certeza de que o presidente da Rússia tomou uma decisão que não infringe nossos interesses", afirmou Hollande. "Se ele (Depardieu) decide sair do país, se ele ama a Rússia e a Rússia ama tanto Gerard Depardieu, então é compreensível. Mas ainda assim Depardieu ama a França, que o reconhece como um grande ator."

(Reportagem adicional de Alissa de Carbonnel e Thomas Grove)

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