Nazista espionou para a Alemanha na América Latina no pós-guerra

Um oficial nazista de alta patente que havia ajudado a criar uma câmara de gás portátil se tornou espião da Alemanha Ocidental depois da Segunda Guerra Mundial e participou de um treinamento da agência de inteligência BND, apesar dos mandados de prisão alemães contra ele, segundo mostram arquivos da BND.

NATALIA DROZDIAK, REUTERS

26 Setembro 2011 | 17h25

"Em retrospecto, o recrutamento de Walther Rauff é política e moralmente incompreensível", disse nesta segunda-feira Bodo Hechelhammer, historiador da BND.

Rauff, que foi oficial da SS na Alemanha nazista, atuou como agente da BND na América do Sul entre 1958 e 1962, recebendo por isso mais de 70 mil marcos (cerca de 18 mil dólares), segundo Hechelhammer. O agente morreu no Chile, em 1984, após escapar a várias tentativas para levá-lo à Justiça.

A BND, criada após a Segunda Guerra com a ajuda dos EUA, chegou inclusive a enviar dinheiro para que Rauff arcasse com custas advocatícias, na época em que estava ameaçado de ser extraditado do Chile.

Após a derrota dos nazistas na guerra, em 1945, Rauff fugiu para a América do Sul, onde foi recrutado pela BND. Ele operou sob o nome de Enrico Gómez, e foi encarregado de informar sobre Fidel Castro -- algo que não ocorreu, porque ele não teve autorização para entrar em Cuba.

Entre 1960 e 1962, Rauff participou de dois cursos da BND na Alemanha. Na época do segundo deles, em fevereiro de 1962, ele já era alvo de um mandado de prisão no país, expedido depois de o seu nome ser citado no julgamento de Adolf Eichmann, oficial da SS que foi sequestrado por agentes secretos israelenses na sua casa, na Argentina. Rauff foi preso no Chile em dezembro do mesmo ano.

Devido a um golpe militar no Chile, Rauff não chegou a ser extraditado, mas em 1963 -- quando já havia poucas dúvidas sobre o passado dele --, a BND pagou à família dele 3.200 marcos para fazer frente a gastos judiciais.

Hechelhammer comanda uma recém-criada comissão encarregada de promover a transparência na história da BND. O prontuário de Rauff tem 900 páginas, e até recentemente era ultrassecreto.

"Esses documentos mostram que havia toda uma equipe nazista crescendo dentro da BND -- e numa época em que o Estado estava intensificando sua caça a criminosos nazistas", disse à revista Der Spiegel o historiador Martin Cueppers, da Universidade de Stuttgart.

"Estamos chocados, mas não surpresos", disse Elan Steinberg, vice-presidente da Reunião Americana de Sobreviventes do Holocausto e Seus Descendentes.

"O fato de as autoridades alemãs terem se envolvido nessa lamentável prática é uma traição em particular das exigências de história e justiça", disse Steinberg em e-mail à Reuters.

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