O nascimento de uma Turquia religiosa, mas moderna

Os turcos, majoritariamente muçulmanos,reclamam muitas vezes do fato de seu país, que vai às urnas nodomingo para escolher um novo Parlamento, ser descrito como umanação que caminha para tornar-se um Estado islâmico apenasporque algumas mulheres desejam ter mais liberdade para usarvéu. Segundo os turcos, os estrangeiros não conseguemcompreender essa grande democracia, que abarca pedaços daEuropa e da Ásia, porque ali há uma mistura incomum de Estadosecular com uma população predominantemente muçulmana. "A Turquia é um país bastante singular, com seu secularismopúblico e sua devoção privada", afirmou à Reuters Hugh Pope, umescritor especializado no assunto. Em meio aos minaretes de suas cidades, bancas vendempublicações que mostram fotos de mulheres com roupas sumárias ebares oferecem qualquer tipo de bebida alcoólica. Algumasturcas usam véu na cabeça, outras, não. Na eleição atual, o papel do islamismo elevou-se aoprimeiro plano e chamou atenção para as crescentes desavençassurgidas no país à medida que uma classe média de muçulmanosdevotos conquista cada vez mais influência. Segundo partidos seculares da oposição, o Partido AK,atualmente no governo e cujos líderes possuem raízes noativismo islâmico, tenta minar a atual conformação do Estado etransformar a Turquia em uma teocracia semelhante à existenteno Irã, baseada na Sharia, conjunto de leis de inspiraçãoislâmica. O Partido AK rejeita as acusações, afirmando que suaatuação à frente do governo prova o contrário. Suas políticasrevelaram-se mais pró-Ocidente do que as da maior parte dospartidos seculares, e a legenda governista toma cuidado paranão ser identificada com os que defendem um maior papel dareligião na vida pública do país. Pesquisas de opinião mostram que o partido conquistarácerca de 40 por cento dos votos --vários pontos mais do que naseleições de 2002-- e que entrará no Parlamento ao lado deapenas outras duas legendas, uma de centro-direita e umanacionalista. As Forças Armadas turcas, guardiãs do secularismo e que jáderrubaram do poder quatro governos (o mais recente deles, umgoverno islâmico, uma década atrás), ameaçou intervir napolícia caso os valores republicanos vejam-se sob ameaça. O primeiro-ministro da Turquia, Tayyip Erdogan, ummuçulmano devoto, teve de convocar eleições antecipadas apósperder uma batalha contra a elite secular, da qual fazem partegenerais do Exército, juízes e líderes da oposição, em torno daescolha do próximo presidente turco. O secularismo domina a Turquia desde 1923, quando MustafáKemal Ataturk fundou a atual República a partir das cinzas doImpério Otomano e afastou a religião da vida pública. Tradicionalmente, coube à elite secular controlar asinstituições públicas e as empresas estatais. Mas, na últimadécada, uma classe média cada vez mais próxima dos valoresreligiosos vem ganhando força nas cidades turcas. Não há estatísticas seguras para se saber se, hoje, é maioro número de mulheres usando véu no país, mas, caso o Partido AKregresse ao poder, terá força suficiente para relaxar algumasdas restrições existentes sobre as manifestações religiosas,algo capaz de provocar novos atritos com a elite secular.

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