OIT lança cartilha para prostitutas brasileiras na Europa

Por meio de depoimentos, guia pretende auxiliar mulheres a escapar de traficantes e aliciadores

BBC,

26 de setembro de 2007 | 14h59

A Organização Internacional do Trabalho, com apoio do governo brasileiro, lançou em Milão uma cartilha para ajudar brasileiras a sair da rede internacional de prostituição e tentar legalizar sua situação no país em que vivem. Passaporte Para A Liberdade foi lançado durante uma reunião de representantes dos consulados europeus, promovida na cidade italiana pelo governo brasileiro, durante um encontro de dois dias sobre tráfico humano. O livro de 82 páginas, em formato de passaporte e que será distribuído em vários consulados brasileiros na Europa, dá dicas sobre como resgatar o controle da própria vida através de um percurso de proteção social previsto na legislação dos países da União Européia ou como tornar possível um retorno ao Brasil.Ele traz informações práticas e mensagens de auto-estima para as vítimas da exploração sexual e é direcionado a quem não sabe como escapar das mãos do traficante e/ou cafetão.Neste sentido, a cartilha aconselha que a vítima denuncie seu algoz às autoridades. Em troca, ela conquistaria o direito de viver no país em que vive. Este seria, segundo os autores do documento, um incentivo a mais para quem tem filhos no Brasil, pois eles teriam direito a viver com a mãe. Informação "A informação é a nossa arma número 1. A maior parte do tráfico de mulheres brasileiras é para a exploração sexual e comercial. Aqui na Europa ele ocorre na Espanha, Portugal, Itália, Suíça e Holanda, nesta ordem", disse à BBC Brasil Anita Amorim, representante da OIT em Genebra. "Em todo o mundo são cerca de dois milhões as vítimas do tráfico de seres humanos, por ano. Um fenômeno que está acontecendo é o chamado cárcere privado, a prostituição caseira, na qual as mulheres e adolescentes ficam isoladas, sem acesso ao consulado e desconhecem os próprios direitos." Mesmo que possam chegar ao consulado, muitas dessas mulheres não apresentam denúncia, temendo ser entregue às autoridades locais, mas o guia ensina que elas podem ser beneficiadas com o direito de legalizar sua situação no país. A cartilha, produzida pelo escritório da OIT no Brasil, ainda explica como funcionam as formas de aliciamento e suas conseqüências, e conta com números de telefones de emergência de embaixadas e consulados brasileiros na Europa, além de autoridades e organizações locais.Depoimentos Com a ajuda de depoimentos, o guia pretende mostrar às brasileiras a realidade da vida de prostituta no exterior. "Meu sonho é sair dessa vida, encontrar um grande amor, viver tranqüila. Mas quando você trabalha como prostituta você fica fria, não existe carinho, nem calor. Todo o dia recebo mais ou menos cem ligações de clientes. Escolho dois ou três...acho que não sou mais capaz de amar, mas posso pagar escola particular para o meu filho, comprei uma casa para a minha mãe...", diz S.C., prostituta brasileira que trabalha em Milão.A tiragem inicial do livro é de dez mil cópias. Trezentos exemplares já estão a caminho, via mala diplomática, para cada um dos 14 consulados brasileiros na Europa. Os conselheiros e cônsules baseados em Lisboa, Porto, Madri, Barcelona, Paris, Roma, Milão, Genebra, Zurique, Bruxelas, Roterdã, Londres, Berlim, Frankfurt e Munique irão distribuí-los gratuitamente.Para o cônsul do Brasil em Milão, embaixador Antonio Augusto Dayrell de Lima, o importante é "que o problema do tráfico está sendo visto politicamente pelo Brasil, pois não adianta não enfrentar o problema e tapar o sol com a peneira aqui fora". Dayrell de Lima explicou que esses casos são difíceis e cada um deve ser analisado separadamente. "Esta publicação é uma ferramenta para ajudar a prevenir e eliminar este tipo de problema", afirmou Daniela Rocha, oficial de projeto da OIT, de Brasília. Muitas brasileiras chegam a Milão já devendo 20 mil euros, (cerca de R$ 60 mil). Um programa de vinte minutos custa 100 euros, o dobro da tarifa cobrada por quem trabalha na rua. "São mulheres jovens, muitas pobres, com filhos que ficaram no Brasil, que vieram da Bahia, de Goiás, Paraná, e com um projeto de vida bem definido na cabeça: Ficar alguns anos fora e depois voltar para o Brasil para recomeçar uma vida", disse à BBC Brasil, Maria Carolina Marques Ferrancini, consultora da OIT e autora do livro.

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