Onda nacionalista ameaça trabalhador estrangeiro na UE

Para analistas, discurso protecionista pode ganhar força em países da Europa por conta da retração econômica

Daniela Milanese, Agência Estado

09 de fevereiro de 2009 | 10h47

A crise global desenterrou o fantasma do nacionalismo na Europa. A situação explodiu com a onda de paralisações deflagrada por trabalhadores britânicos em oposição à contratação de estrangeiros. O viés protecionista também ganha corpo nas declarações de governos de diversos países europeus. Existe a preocupação de que esse movimento cresça diante da forte retração econômica e das demissões em massa já feitas - o que representa preocupação para a força de trabalho estrangeira. No Reino Unido, uma série de manifestações começou quando a refinaria de petróleo Lindsey, na cidade de Killingholme, decidiu contratar uma empresa italiana de engenharia para ampliar suas instalações. Foram recrutados então cerca de 200 empregados temporários italianos e portugueses, supostamente por salários mais baixos. No final de janeiro, os funcionários da refinaria decidiram entrar em greve com o lema "empregos britânicos para trabalhadores britânicos" - ampliando o risco de xenofobia. Atos semelhantes se espalharam pelo país, levando à paralisação de seis mil funcionários em 22 empresas. Para resolver a situação, a Lindsey, que pertence à francesa Total, teve de recuar e garantir que pelo menos metade dos novos contratados será britânica. "É claro que poderemos ver mais manifestações desse tipo em outros países da Europa", afirmou o presidente do Centro de Estudos de Política Europeia, instituição independente baseada em Bruxelas, Karel Lannoo. Para ele, as greves partiram do Reino Unido porque o país foi o mais afetado pela crise. "O problema no Reino Unido começou antes e é mais profundo, mas me surpreende ver uma manifestação dessas em um lugar que sempre foi contrário a questões nacionalistas na União Europeia." Mesmos direitos  As regras da UE preveem que os cidadão podem trabalhar em qualquer país do bloco, com movimentação livre e com os mesmos direitos. "Não existe problema legal na contratação dos italianos e portugueses e essa posição não ajuda a União Europeia", afirmou Robert Hancke, doutor da London School of Economics and Political Science (LSE). O episódio fez até o comissário europeu do Emprego e dos Assuntos Sociais, Vladimir Spidla, cogitar a reavaliação das regras de livre movimentação no bloco. Os especialistas acreditam que a indisposição entre os europeus é maior do que em relação a trabalhadores de países em desenvolvimento. Isso porque o trânsito de pessoas dentro do continente é mais forte do que o fluxo de imigrantes de outras regiões. "Mas a situação deve ficar mais difícil para aqueles que vêm de lugares mais pobres e não têm qualificação", acredita Hancke."Já existe uma grande força contra a imigração ilegal, que agora deve ser reforçada", complementa Lannoo, do Centro de Estudos de Política Europeia. Além das greves, a posição de diversos governos vem espalhando preocupações pelo continente. A França e a Suécia afirmaram que só irão ajudar as indústrias automobilísticas se elas se comprometerem a manter a produção em seus países, sem deslocamento para mercados com custo menor."Se damos dinheiro para uma empresa automobilística, não é para que ela vá para a República Tcheca", disse o presidente da França, Nicolas Sarkozy. Na Grécia, o governo impediu os bancos de socorrerem filiais em outros países. O país também assistiu cerca de mil agricultores se manifestarem pedindo mais apoio financeiro do governo, entrando em choque com a polícia. Na Espanha, o ministro de Indústria e Comércio, Miguel Sebastián, disse recentemente para a população introduzir o "fator espanhol" em suas opções de consumo, optando por produtos nacionais para impedir uma retração maior da indústria. A posição está em linha com o "Buy American", medida do pacote do presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, de exigir o consumo de minério e aço produzidos no próprio país. "O nacionalismo econômico está transformando a crise econômica em política e ameaçando o mundo com a depressão", diz a revista The Economist, cuja capa desta semana aborda o tema. Nesse ambiente, ministros de Comércio tentam retomar a Rodada Doha, para impedir que o protecionismo se espalhe pelo comércio. Para Karel Lannoo, o cenário torna a conclusão das negociações muito mais necessária. "É preciso usar este momento como oportunidade." Para Hancke, da LSE, a crise torna a conclusão de Doha muito mais complicada. "O mercado europeu ficará mais fechado."

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