ONU abre sua 'Capela Sistina' em Genebra

Sala de US$ 30 milhões, em plena crise, causa mal-estar; Espanha custeia obra e diz que 'arte não tem preço'

Jamil Chade, O Estado de S. Paulo

18 de novembro de 2008 | 07h42

 A obra já está ganhando o nome de "Capela Sistina do Século 21". Não apenas por sua beleza e significado artístico, mas também pela polêmica que abriu. Na quarta-feira, 19, na sede da ONU em Genebra, políticos de todo o mundo e o secretário-geral das Nações Unidas, Ban Ki-moon, inauguram a cúpula de uma das salas de reunião da entidade. O custo: quase US$ 30 milhões, em plena crise mundial e com o número de famintos no mundo aumentando a cada dia.   Foto: Efe   A obra é do artista espanhol Miquel Barceló, a nova estrela da pintura mundial e comparado a Juan Miró e outros. Em seus andaimes, Barceló passou 13 meses para pintar uma área de mais de 1,4 mil metros quadrados. Mas se recusa a declarar quanto recebeu pela obra e fez questão de trazer da Espanha um cozinheiro para acompanhá-lo.   A cúpula está sendo paga pelo governo da Espanha, empresas e até um fundo internacional contra a pobreza. Não por acaso, o rei Juan Carlos e o primeiro-ministro espanhol, José Luis Rodríguez Zapatero, estarão no evento. A sala ganhará o nome de Câmara para os Direitos Humanos e para a Aliança entre as Civilizações. A pintura vinha sendo mantida em sigilo, mas o Estado e outros jornais tiveram acesso a partes da obra: um teto de estalactites coloridas e um mar em plena tempestade. Assim como fez Michelângelo no Vaticano, Barceló fez questão de tapar a obra com panos e controlar rigorosamente o acesso à sala até segunda.   Aos jornais espanhóis, Barceló explicou que a caverna é a "metáfora de uma ágora, o primeiro local de encontro dos humanos, a grande árvore africana sob a qual as pessoas se sentavam para falar e o único futuro possível: o diálogo". Sobre o mar, o pintor explica que a referência é ao passado. "O mar é a origem das espécies e a promessa de um novo futuro: emigração, viagem", disse.   Quem teve o privilégio de ver a obra, garante que ela marcará uma época e se transformará num local de visitas. Mas o custo da obra causou polêmica entre políticos e até mesmo funcionários da ONU, que lutam todos os dias para conseguir recursos para comprar remédios ou evitar guerras. A organização vive uma constante crise de recursos e não consegue sequer coletar o dinheiro que julga ser suficiente para ajudar a população no Haiti e outros países. O argumento: há um cansaço dos doadores internacionais com projetos para salvar vidas.   A obra, porém, parece não ter tido problemas para ser financiada. Dos quase US$ 30 milhões gastos, 60% vieram de empresas espanholas. O restante veio do governo, incluindo um fundo de apoio ao desenvolvimento. A Espanha está em plena crise econômica, com mais de 6 mil novos desempregados por dia e lutando contra o fechamento de empresas. Mas para o ministro de Relações Exteriores, Miguel Ángel Moratinos, "a arte não tem preço". Ele e seu governo vêm sendo bombardeado por críticas.   Barceló, que se recusa a dizer quanto recebeu pelo projeto, garante que o dinheiro não vem de fundos que seriam usados para comprar remédios para a ONU. Mas, assim como Michelangelo na Capela Sistina, Barceló não economizou. Usou 35 toneladas de tintas e contratou 20 especialistas para trabalhar com ele. Incluindo não apenas engenheiros e geólogos, mas também um cozinheiro e um motorista de plantão.

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