ONU critica proibição de minaretes aprovada na Suíça

Alta-comissária de Direitos Humanos diz que decisão é discriminatória e contrária às obrigações do país

Efe e Reuters,

01 de dezembro de 2009 | 11h43

A alta-comissária da ONU para os Direitos Humanos, Navy Pillay, condenou nesta terça-feira, 1º, a decisão de proibir minaretes nas mesquitas da Suíça, adotada no domingo por meio de um referendo, e a qualificou de "discriminatória" e contrária às obrigações do país em termos de direitos humanos.

 

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"Duvidei em condenar um voto democrático, mas não tenho nenhuma dúvida em condenar a onda anti-estrangeira que se caracterizou na campanha política de alguns países, entre eles a Suíça, e que ajuda a produzir resultados como este", lamentou Navy em um comunicado.

 

A proibição de construir minaretes, aprovada por cerca de 60% dos suíços, é "discriminatória, profundamente divisória e um passo extremamente desafortunado por parte da Suíça, que a põe em risco de colidir contra suas obrigações internacionais em matéria de direitos humanos", disse a comissária.

 

Navy, uma jurista sul-africana que em seu próprio país de origem lutou ativamente contra o apartheid, admitiu que o governo suíço não apoiou a iniciativa de proibir os minaretes lançada por dois partidos da direita nacionalista, mas lamentou os argumentos de campanha utilizados pelos partidários da mudança, que exploraram o medo do islã.

 

"A política baseada na xenofobia ou na intolerância é extremamente preocupante, onde quer que ocorra. Às vezes se dirige contra membros de uma determinada religião, como nesse caso, e outras vezes é contra gente de diferente raça ou origem étnica. Isso é corrosivo, e a partir de certo momento, pode se tornar perigoso", advertiu.

 

Protestos

 

O resultado da votação do fim de semana na Suíça, que proibiu novas construções de minaretes em mesquitas, provocou uma onda de protestos em todo o mundo. Em uma rara aliança informal, países muçulmanos, o Vaticano e até os demais países europeus condenaram a decisão. Todos temem que possa haver reações violentas de grupos radicais islâmicos.

 

Com 57,5% dos votos, a população suíça apoiou a ideia de políticos de extrema direita de impedir a construção de novos minaretes nas mesquitas do país. Eles dizem que as construções seriam armas para "marcar o terreno" islâmico.

 

Os quatro minaretes que existem na Suíça - onde vivem cerca de 400 mil muçulmanos - sequer são usados para chamar os fiéis para a reza. Mesmo assim, a população optou por bani-los.

 

O resultado foi duramente atacado pela União Europeia, temendo uma deterioração da relação entre o continente e o mundo muçulmano. "Trata-se de uma expressão de preconceito e medo", disse Carl Bildt, chanceler da Suécia, que preside a UE até o fim de dezembro. "Os muçulmanos precisam entender que a Europa não tem problemas com eles. Os muçulmanos são europeus." Um dos ataques mais fortes veio do chanceler francês, Bernard Kouchner, que se disse escandalizado. "Trata-se de uma expressão de intolerância", afirmou.

 

O governo suíço voltou a garantir que a liberdade de culto permanecerá inalterada. No entanto, nos países islâmicos, o temor é de que a decisão incentive protestos entre os mais radicais, como ocorreu quando um jornal dinamarquês publicou caricaturas de Maomé.

 

Em Jacarta, a principal organização muçulmana indonésia, Nahdlatul Ulama, declarou que a votação era um "sinal da raiva e da intolerância" do Ocidente, mas pediu que os muçulmanos não reajam com violência.

 

O ministro do Comércio do Egito, Rashid Mohamed Rashid, também criticou a votação, dizendo que ela cria um "ambiente ruim para os muçulmanos que vivem na Europa". O líder religioso sunita no Egito, Ali Gomaa, classificou o resultado como um "insulto" ao povo muçulmano. Ele, porém, também pediu que não haja represálias.

 

O Vaticano também condenou a votação, alertando que se trata de uma "violação do direito de liberdade religiosa". O temor da Santa Sé é de que suas igrejas nos países muçulmanos sejam atacadas.

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