Oposição alerta para 'Estado profundo' em novo gabinete na Turquia

A oposição turca acusou nesta quinta-feira o primeiro-ministro Tayyip Erdogan de tentar governar por meio de um sigiloso "Estado profundo", após uma reforma ministerial que levará o Executivo a reforçar o controle sobre a polícia, alvo de expurgos ordenados pelo governo.

DAN WILLIAMS, Reuters

26 de dezembro de 2013 | 10h14

Entre os dez novos ministros nomeados por Erdogan na noite de quarta-feira está Efkan Ala, ex-governador da turbulenta província de Diyarbakir, que assumirá a poderosa pasta do Interior, responsável pela política de segurança interna.

Ala substitui Muammer Guler, um dos três ministros que renunciaram devido à detenção de seus filhos por suspeita de corrupção, numa operação iniciada em 17 de dezembro. Guler - que assim como Erdogan vê motivação política na operação - demitiu ou transferiu de funções dezenas de policiais envolvidos na ação, incluindo o chefe de polícia de Istambul.

"Ele (Erdogan) está tentando formar um gabinete que não demonstrará nenhuma oposição a ele. Nesse contexto, Efkan Ala terá um papel chave", disse Kemal Kilicdaroglu, diretor do partido CHP, o maior da oposição, em declarações difundidas pela imprensa turca.

"Erdogan tem um Estado profundo, (seu) Partido AK tem um Estado profundo, e Efkan Ala é um dos elementos desse Estado profundo", acrescentou Kilicdaroglu, usando um termo que, para os turcos, alude a uma estrutura de poder paralelo, que não é afetada pelos mecanismos democráticos de pesos e contrapesos.

Em seus três mandatos como premiê, Erdogan, um político de tendências islâmicas, transformou a Turquia, reduzindo o papel das Forças Armadas laicas e comandando uma rápida expansão econômica. Em 2013, ele resistiu a uma inédita onda de protestos nas grandes cidades.

Mas o escândalo de corrupção levou a União Europeia a sair em defesa da independência do Judiciário turco, além de abalar a Bolsa local e a cotação da moeda, que caiu na segunda-feira ao seu menor nível histórico, sendo negociada a 2,1025 liras por dólar.

O caso pode ter fortes implicações para Erdogan, inclusive por expor sua rivalidade com Fethullah Gulen, um clérigo turco radicado nos EUA, líder do movimento Hizmet (Serviço), que diz ter pelo menos 1 milhão de seguidores, incluindo policiais graduados e juízes.

Outro ministro demissionário, Erdogan Bayraktar, do Meio Ambiente, saiu atirando, ao propor que o primeiro-ministro também renuncie por causa do escândalo.

(Reportagem adicional de Humeyra Pamuk e Orhan Coskun)

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