Os erros que levaram à morte de Jean Charles

Novo júri do caso da morte do brasileiro termina sem conclusão; entenda os fatos da investigação

Efe,

12 de dezembro de 2008 | 12h45

O brasileiro Jean Charles de Menezes morreu em 22 de julho de 2005 ao ser baleado por policiais que o confundiram com um terrorista na estação de metrô de Stockwell, no sul de Londres. Após os atentados fracassados de 21 de julho contra três vagões do metrô e um ônibus em Londres - uma cópia dos cometidos no dia 7 do mesmo mês -, a polícia iniciou uma operação antiterrorista. Agentes que participavam da operação, dirigida pela comandante Cressida Dick, foram enviados para vigiar o prédio onde Jean Charles morava, no bairro de Tulse Hill, no sul de Londres, depois que uma carteira de membro de uma academia de ginástica que aparentemente pertencia a um dos moradores do edifício foi encontrada em um dos cenários dos atentados fracassados. O jovem brasileiro deixou o prédio por volta das 9h30 (7h30 em Brasília) para ir ao trabalho, mas o agente de guarda não conseguiu filmá-lo nem identificá-lo porque Jean Charles estava urinando, e achou que o eletricista poderia ser Hussain Osman, um dos supostos autores dos ataques de 21 de julho. Um agente começou a seguir Jean Charles em seu trajeto de 15 minutos de ônibus à estação de metrô de Stockwell, enquanto os demais tentaram confirmar se era o suposto terrorista. Sem imagens para comparar com as de Osman, a polícia usou outros critérios para tentar identificá-lo, como a aparência física, roupas, comportamento suspeito ou se apareciam arames por baixo da roupa. Aparentemente, um dos agentes descreveu Jean Charles erroneamente como "de aparência asiática". Durante a investigação judicial iniciada em 22 de setembro, vários agentes declararam que a sala de operações da Scotland Yard estava um caos no dia do incidente, a ponto de que alguns policiais não tinham de forma clara quem era o oficial no comando. Alguns agentes asseguraram que não ouviram uma confirmação precisa da identidade do suspeito antes de ter sido morto, enquanto a foto da carteira de motorista de Osman, que teria facilitado o trabalho de identificação, só foi recebida duas horas depois da tragédia. Um agente identificado como "Owen" é investigado atualmente por apagar a informação que no dia dos fatos tinha introduzido em seu computador, e que depois considerou "irrelevante". A linha que apagou dizia: "CD (siglas de Cressida Dick): pode subir no metrô porque não leva nada". Após seu trajeto de ônibus, Jean Charles entrou no metrô e pouco depois, quando os agentes da brigada armada supostamente receberam confirmação de sua identidade, foi baleado em um dos vagões. O então comissário-chefe da Scotland Yard, Ian Blair, disse em sua versão inicial do fato que Jean Charles se negou a obedecer a polícia quando foi pedido que se rendesse. Blair disse que o suspeito saltou as catracas, fugiu pelas escadas e chegou ao trem, onde os agentes que o perseguiam dispararam para evitar que cometesse um atentado. No entanto, posteriormente se soube, graças às câmeras de segurança e testemunhas, que Jean Charles se comportou como qualquer outro viajante: entrou andando, passou seu bilhete e até pegou um exemplar de um jornal gratuito antes de subir no comboio onde acabou sendo baleado. O legista que examinou o corpo do brasileiro, Kenneth Shorrock, revelou ao tribunal que os agentes que o acompanharam em sua inspeção da estação de Stockwell deram informações erradas: asseguraram que Jean Charles tinha pulado as roletas de acesso e tropeçado nas escadas em sua suposta fuga das autoridades. Em um primeiro momento, a polícia defendeu que a conduta de Jean Charles tinha sido suspeita, entre outros motivos por vestir roupas largas e de frio, que podiam ocultar uma bomba, apesar de estarem no verão. No entanto, documentos e fotografias posteriores revelaram que o jovem brasileiro levava apenas uma jaqueta leve. Os sete passageiros que presenciaram a morte de Jean Charles declararam, na investigação, que os dois agentes que balearem ele - apresentados como "C2" e "C12"- não se identificaram como "polícia armada" antes de abrir fogo, o que contradiz a versão deles. "C12" afirmou, ao testemunhar, que nunca tinha atirado em ninguém antes de balear o brasileiro. Cressida Dick, que, desde o fato, foi promovida à subcomissária, disse ao tribunal que Jean Charles foi "vítima de circunstâncias terríveis e extraordinárias" e ressaltou que nenhum agente fez nada "incorreto". Segundo ele, "outro inocente poderia morrer" em circunstâncias similares.

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