Otan acusa Rússia de não cumprir plano de paz com a Geórgia

Aliança diz que não pode manter parceria com Moscou até que tropas cumpram acordo e se retirem do país

Agências internacionais,

19 de agosto de 2008 | 09h47

O secretário-geral da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan), Jaap de Hoop Scheffer, acusou nesta terça-feira, 19, a Rússia por não cumprir o acordo de paz firmado com a Geórgia. Após a reunião dos ministros das Relações Exteriores dos países membros da aliança, o grupo afirmou que considera seriamente as implicações da incursão russa e que a parceria com Moscou não continuará enquanto as tropas não deixarem totalmente a Geórgia.   Veja também: Geórgia e Rússia fazem 1ª troca de prisioneiros Ouça o relato de Lourival Sant'Anna  Imagens feitas direto de Gori, na Geórgia  Godoy e Cristiano Dias comentam conflito  Entenda o conflito separatista na Geórgia   A Otan afirmou ainda que não comprovou nenhum sinal de retirada das tropas russas e criticou novamente o uso desproporcional da força por parte de Moscou ao promover a ofensiva para defender os separatistas da Ossétia do Sul, província georgiana com aspirações pró-Moscou. Os ministros deixaram claro que a solução para o conflito na Geórgia deve se basear no "respeito absoluto à independência, soberania e integridade territorial" deste país. Os aliados destacaram seu apoio a Tbilisi e decidiram estabelecer uma comissão Otan-Geórgia responsável de supervisionar o processo iniciado na cúpula de Bucareste diante da futura adesão do país à organização.   "O futuro de nossas relações com a Rússia dependerá das ações concretas que o país tome para ajustar-se às palavras do presidente Dmitri Medvedev, o que não aconteceu até o momento", disse Scheffer aos jornalistas após a reunião. O grupo alegou não ser possível que "as coisas continuem como antes" nas relações com a Rússia. Scheffer disse que nenhum programa de cooperação foi afetado até o momento, "mas é possível presumir que isso será analisado".   A Rússia afirmou que a declaração da Otan foi tendenciosa e acusou a aliança militar ocidental de tentar salvar um "regime criminoso" em Tbilisi. "A Otan está tentando transformar um agressor em vítima e encobrir um regime criminoso, (está tentando) salvar um regime em colapso e está no caminho do rearmamento dos líderes atuais da Geórgia", disse o ministro das Relações Exteriores da Rússia, Sergei Lavrov, a repórteres. O chanceler disse que a Rússia não tinha a intenção de ocupar o território georgiano e que as tropas russas podem ser retiradas da Geórgia em 3 a 4 dias, mas isso depende da rapidez da Geórgia em retornar às suas bases permanentes.   A secretária de Estado americana, Condoleezza Rice, advertiu que a Otan não permitirá que Moscou trace uma "nova linha" na Europa, para separar os países integrados na estrutura de segurança da Aliança dos que estão fora dela. Após assistir a reunião extraordinária da Aliança para analisar a situação na Geórgia, Rice se mostrou satisfeita pelo claro apoio dos aliados à integridade territorial e à soberania da Geórgia, assim como a seu governo democraticamente eleito.   A Organização para Segurança e Cooperação na Europa (OSCE) anunciou nesta terça-feira um acordo para enviar imediatamente 20 monitores militares desarmados a áreas próximas da Ossétia do Sul, com a possibilidade de ampliar o contingente para 100 representantes. A OSCE já possui oito monitores na região como parte de uma missão de 200 pessoas na Geórgia. A entidade informou ter planos de ampliar para até cem o número de monitores na Geórgia por um período mínimo de seis meses, mas ainda é necessária uma decisão do Conselho Permanente da OSCE.   Aparente retirada   Uma coluna de tanques e veículos blindados foi vista deixando nesta terça-feira a cidade georgiana de Gori e um oficial do Exército da Rússia informou que os veículos passarão pela Ossétia do Sul para depois ingressarem em território russo. O comboio, que aparentemente também incluía um lançador móvel de foguetes, passou nest tarde (hora local) pelo povoado de Ruisi, nos arredores de Gori, pela estrada que leva à Ossétia do Sul. Gori é uma cidade estratégica, lá que está nos arredores de Tbilisi e faz a ligação entre o leste e o oeste do país.   O coronel Konoshenkov, um oficial do Exército da Rússia, disse à Associated Press no local que a unidade dirigia-se à Ossétia do Sul, atravessaria o território e depois entraria em solo russo. Ele não soube dizer quando ocorrerá a travessia da fronteira. Konoshenkov disse que a mobilização faz parte da retirada exigida por um cessar-fogo mediado pela União Européia (UE) para encerrar a breve guerra entre a Rússia e a Geórgia. As forças russas e georgianas devem recuar às posições anteriores a 7 de agosto, quando o Exército da Geórgia promoveu uma ofensiva contra a Ossétia do Sul em uma tentativa de recuperar o território separatista pró-Moscou. Em resposta, tropas russas invadiram a Geórgia no dia seguinte.   A Geórgia acusou as forças russas nesta terça-feira de entrar no porto de carregamento de petróleo de Poti, no mar Negro, e deter 20 autoridades policiais. "Eles entraram no porto civil e chutaram todos para fora", disse o porta-voz do Ministério do Interior da Geórgia, Shota Utiashvili. "Os russos prenderam os seguranças do porto, 20 deles. Eles são policiais", disse.   Em Moscou, o Estado Maior confirmou em um informe diário que suas forças prenderam 20 georgianos "fortemente armados" em Poti. De acordo com o comunicado, eles estariam viajando em cinco veículos Hummer e traziam riscos à segurança. Diversos homens com vendas nos olhos foram colocados em veículos blindados da Rússia, que seguiam para a cidade ao leste de Senaki.   Senaki e Poti, que é a passagem mais importante de bens para os Estados caucasianos do Azerbaijão e Armênia, além da Ásia Central, estão a centenas de quilômetros da Ossétia do Sul, região separatista que despertou o conflito entre Tbilisi e Moscou. Os georgianos se opõem à presença militar russa em lugares como Poti e dizem que isto prova que Moscou não está querendo apenas proteger a Ossétia do Sul e sim desarticular a economia e a infra-estrutura do país.   Troca de presos   Forças russas e georgianas trocaram prisioneiros na terça-feira em uma rodovia do centro da Geórgia, em um gesto de boa-vontade apesar da tensão devido à prometida desocupação russa. A troca levou 15 minutos e aconteceu na região de Igoeti, 45 quilômetros a oeste de Tbilisi, onde tanques e blindados russos estão entrincheirados numa encosta, enquanto a polícia georgiana faz uma blitz rodoviária.   Para a troca de prisioneiros, dois helicópteros russos pousaram nos arredores, e a Reuters viu vários homens fardados e desarmados sendo escoltados em fila única por soldados russos até o meio da estrada. No lado russo, o jornalista da Reuters viu pelo menos um piloto russo - abatido durante bombardeios - sendo levado de maca.   A Geórgia disse ter trocado cinco russos por 15 georgianos, sendo dois civis. Houve apertos de mãos e a assinatura de um protocolo sobre uma mesa colocada no meio da pista. "O processo transcorreu normalmente, foi mediado pelo embaixador francês", disse Kakha Lomaia, secretário do Conselho Georgiano de Segurança Nacional, acrescentando que Tbilisi ainda mantém em seu poder dois militares russos capturados durante a luta pelo controle de Tskhinvali, capital da Ossétia do Sul.   Matéria atualizada às 12h20.

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