Fernando Altemeyer Junior

19 de abril de 2010 | 12h25

 

Para entender os cinco anos do pontificado atual é preciso rever a vida de quem foi escolhido para ser o 265º sucessor de Pedro como bispo de Roma. Tornou-se um intelectual que deixou a Baviera, mas que jamais permitirá que a Baviera saia de dentro de si. Guarda como tesouro inabalável o amor à Virgem de Mariazell. Na escola da Mãe de Deus, aprendeu que todo poder é serviço aos pequeninos que não se pode escandalizar. A infância vivida aos pés dos Alpes foi guiada pela educação clássica que talhou sua personalidade intelectual. A Baviera é a terra do barroco, arte que vive do contágio emotivo e dos santos. Este papa é um homem das emoções que desejam a Deus revelado na verdade, na beleza e no amor. Viveu entre Munique e Salzburgo, tornando-se um aficionado da música clássica, um mozartiano.

 

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Seus mestres são Santo Agostinho e São Boaventura. Como estes teólogos, o papa proclama que somos capazes de manter livre a inteligência na docilidade à graça de Deus. Crê que somos capazes de alçar voo nas asas articuladas da fé e da razão. Seu lema episcopal é Cooperatores Veritatis, pois se afirma um cooperador da verdade que enfrenta o relativismo, um problema nevrálgico. Tem alertando europeus para que não se tornem vítimas de um laicismo estéril e obtuso. Preocupa-se com aqueles que negam as raízes cristãs e professam um niilismo corrosivo. Afirma que é urgente o cultivo da arte nutrida no Uno, no Bom, no Verdadeiro e no Belo.

 

A Igreja Católica compreende melhor sua voz suave ao celebrar hoje os cinco anos de sua eleição. Descobre que está diante de um teólogo eminente que anuncia o Evangelho como homem discreto e excelente pedagogo. Ele questiona os fundamentos da modernidade líquida e pede aos cristãos que busquem bases mais sólidas no Evangelho. Teme a apostasia do Ocidente com o crescimento do ateísmo e do agnosticismo, antes restritos aos totalitarismos stalinista e nazista. Seu antídoto para o vazio existencial é maior fidelidade, lucidez e santidade dos seguidores de Jesus. Insiste em proclamar novos santos como paradigmas de um cristianismo do futuro, marcado mais pela qualidade espiritual do que pela quantidade. Há cerca de 400 processos de canonização em curso, sendo 50 brasileiros natos.

 

Enfrentou temas polêmicos: o diálogo com as comunidades judaica e islâmica, o uso de preservativos na África, a reinserção de quatro bispos do cisma lefebvriano, o retorno da missa tridentina e o escândalo de pedofilia nos EUA, México, Irlanda, Brasil e Alemanha. Manteve-se ao lado daquelas que sofreram esta clamorosa injustiça e exigirá publicamente que os bispos envolvidos - incluídas as conferências episcopais, dioceses e congregações religiosas - tenham ação firme para punir este crime. Na carta aos irlandeses, Bento XVI disse que esta traição a Cristo exige reparação da Igreja pois é um "grave pecado que ofende Deus e fere a dignidade da pessoa humana criada à Sua imagem".

 

Viveu momentos iluminados em seu pastoreio quando clamou por uma ação efetiva da comunidade internacional durante os terremotos que afligiram haitianos, chilenos e tibetanos. Quando abraçou jovens dependentes químicos no Brasil, em 2007. E sobretudo ao tocar, suave e comovido, o rosto de sobreviventes de Auschwitz, na visita à Polônia, em 2006. São gestos paternais que falaram ao coração da humanidade tantas vezes órfã e vilipendiada por mecanismos sutis de segregação social.

 

Seus desafios para o próximo quinquênio podem ser resumidos a três grandes gestos simbólicos: a visita a Moscou para fixar laços ecumênicos plenos com o patriarcado ortodoxo russo, a realização no próximo ano em Roma de um Sínodo para o Oriente Médio - como contribuição concreta dos católicos ao processo de paz na Terra Santa - e a preparação diligente da presença permanente da Igreja na China, talvez com a reinstalação de um mosteiro beneditino na China Continental.

 

Manteve contato com os católicos sem tantas viagens como João Paulo II, mas tornou-se presente através da TV, da internet, de blogs e sites. É o primeiro Papa a possuir um iPod.

 

Dedicou o coração de seu ministério petrino à defesa da verdade desde sua eleição como "um simples e humilde trabalhador na vinha do Senhor", confiante nas orações do povo cristão e na ajuda de Cristo e de sua Mãe. Sempre afirma que quer construir pontes firmes no diálogo em favor da paz sem transigir nos valores da fé em Deus como pedra angular de uma humanidade emancipada.

 

Em meio aos ventos contrários destas últimas semanas, o papa Bento XVI emerge no século 21 como um papa das correntes subterrâneas mais do que alguém que surfa nas espumas do mar. Compreendê-lo exige espírito de fineza.

 

*Fernando Altemeyer Junior é professor assistente doutor do Departamento de Ciencias da Religião da PUC-SP

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