Para Rússia, escudo antimíssil agrava relações com os EUA

Tensão diplomática cresce entre Moscou e Washington; escudo expõe Polônia a ataque, adverte general russo

Agências internacionais,

15 de agosto de 2008 | 07h30

A Rússia disse nesta sexta-feira, 15, que um acordo para sediar parte de um escudo antimíssil dos Estados Unidos na Polônia prejudicará as relações com Moscou, já tensas após a intervenção americana na crise no Cáucaso. A assinatura da proposta ocorre em um momento no qual Washington advertiu Moscou de que as relações entre os dois países pode ficar abalada, depois da intervenção militar russa na Geórgia após Tbilisi deflagrar uma ofensiva contra a Ossétia do Sul, província separatista georgiana cuja maior parte da população é russa.  Os Estados Unidos e a Polônia assinaram na quinta-feira em Varsóvia um acordo preliminar que prevê a instalação de parte de um escudo de defesa antimísseis americano em território polonês. O plano, que enfrenta uma forte resistência por parte da Rússia, pretende posicionar dez mísseis interceptadores em uma antiga base militar perto da costa polonesa do Mar Báltico. Em contrapartida, os EUA se comprometeram a ajudar a Polônia a melhorar suas forças armadas, além de remanejar para o país mísseis defensivos Patriot e militares americanos, para reforçar as defesas aéreas polonesas. A expectativa é de que o sistema entre em operação por volta de 2012. "Só se pode lamentar que, em meio a essa situação difícil, os americanos estejam agravando as relações com a Rússia", disse o coronel-general Anatoly Nogovitsyn, vice-chefe do Estado-Maior russo, em entrevista coletiva. Nogovitsyn disse ainda que o acordo polonês para o escudo antimísseis expõe a Polônia a ataques.  O secretário americano de Defesa, Robert Gates, advertiu na quinta-feira que as relações entre Washington e Moscou podem ser afetadas por muito tempo caso os russos não respeitem o cessar-fogo e não se retirem da Geórgia. "O comportamento da Rússia tem profundas implicações no desenvolvimento futuro de nosso relacionamento, tanto na Otan quanto bilateralmente", afirmou Gates, que foi diretor da CIA.  As declarações, as mais duras já feitas por uma autoridade dos EUA desde o início do conflito, foram feitas logo depois de a Rússia reiterar seu apoio incondicional às aspirações de independência das províncias separatistas da Geórgia. Nesta sexta-feira, a Secretária de Estado dos EUA, Condoleezza Rice, disse esperar que o acordo seja assinado muito em breve. Rice está na Geórgia para garantir a assinatura do acordo de cessar-fogo para o conflito envolvendo a província georgiana separatista da Ossétia do Sul, que conta com o apoio de Moscou. O governo polonês diz que o conflito na Geórgia evidenciou a necessidade de uma assistência militar dos EUA. Segundo o chanceler polonês, Radek Sikorski, o acordo de ajuda mútua foi "um passo para a real segurança da Polônia", pois demoraria muito para a Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) responder em caso de ameaça. "Precisamos garantir nossa segurança nas primeiras horas de um possível conflito", disse. Segundo a BBC, a Rússia se opõe ao plano, argumentando que a instalação de um sistema antimísseis americano no Leste Europeu "complica" a segurança global ao afetar o equilíbrio militar na Europa e estimula uma corrida armamentista. Por outro lado, Washington diz que o sistema foi pensando para proteger os Estados Unidos e seus aliados na Europa de ataques de países considerados perigosos, como o Irã, e não da Rússia.  Guerra no Cáucaso A Rússia disse na sexta-feira que suas forças apreenderam armas fabricadas nos Estados Unidos de uma base militar georgiana perto da cidade de Senaki, mas acrescentaram que não houve tiroteio na Geórgia nas últimas 24 horas. "Nossas forças apreenderam 1.728 armas em Senaki", disse o coronel-general Anatoly Nogovitsyn, vice-chefe do Estado-Maior da Rússia, em uma coletiva de imprensa.  Nogovitsyn manifestou novas dúvidas sobre o tipo de carga que os Estados Unidos despacharam à Geórgia. "Gostaríamos de saber se é mesmo humanitária ou se há algum outro tipo de carga militar, mas não temos essa informação".  Nogovitsyn disse ainda que Rússia e Ucrânia precisam realizar novas negociações sobre o futuro da frota russa no Mar Negro, estacionada na península ucraniana de Crimea. "A situação atual não pode continuar assim por muito tempo. Precisamos de negociações em formato bilateral para chegarmos a um acordo", disse. Ele também negou que a Rússia tenha usado bombas cluster - armamento que ao ser disparado solta várias submunições explosivas - no recente conflito na Geórgia.

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