Paralisada, Grécia descumpre metas do resgate financeiro

A prolongada incerteza eleitoral deixou a Grécia num estado de profunda paralisia, e o eventual novo governo assumirá um país que já está desrespeitando as metas impostas por credores internacionais.

INGRID MELANDER E GEORGE GEORGIO, REUTERS

17 Maio 2012 | 09h13

A União Europeia e o Fundo Monetário Internacional exigiram profundas reformas e medidas de austeridade em troca da concessão de um pacote de resgate de 130 bilhões de dólares, decidido em março.

Mas a Grécia não tem governo eleito desde a inconclusiva eleição de 6 de maio, e a paralisia vai continuar por pelo menos mais um mês, enquanto os cofres do Tesouro vão se esvaziando.

O juiz Panagiotis Pikrammenos tomou posse na quarta-feira como primeiro-ministro interino, mas não terá poderes para tomar nenhuma decisão política -- apenas para guiar o país até a repetição das eleições, em 17 de junho.

"A única coisa que estamos fazendo é esperar", disse um funcionário governamental que pediu anonimato.

Outra fonte oficial disse que ministros do gabinete demissionário foram desautorizados a negociar com os credores desde a eleição de 6 de maio. Um dirigente partidário disse que o governo provisório não emitirá decretos, e que todas as licitações estão suspensas.

A esquerda radical, agora favorita na nova eleição, alarma a Europa ao ameaçar abandonar completamente o pacote internacional. Mas, mesmo que o próximo governo grego deseje manter o acordo, terá de correr atrás do tempo perdido.

Um programa de privatizações já reduzido em várias ocasiões agora foi suspenso, um plano para o corte de bilhões de dólares dos gastos públicos está longe de ser concluído, a arrecadação de impostos continua falha, e o plano de recapitalização dos bancos está no limbo.

Uma consequência já se tornou clara na quarta-feira: fontes do Banco Central Europeu disseram ter retido o fluxo de liquidez para alguns bancos gregos, por causa da demora na recapitalização das instituições.

Mesmo antes da eleição do dia 6, muitas reformas já estavam em banho-maria, para não contrariar o eleitorado, segundo autoridades envolvidas nas negociações do resgate financeiro. Isso incluiu um plano para cortar mais 11,5 bilhões de euros em gastos públicos em 2013-14, o que a Grécia precisa definir até o final de junho -- um dos prazos mais cruciais previstos no acordo.

PRIVATIZAÇÕES

As privatizações, necessárias para que o governo faça caixa, também estão paradas. O conselho de direção do fundo grego de privatizações decidiu na terça-feira que não tomará nenhuma decisão sobre a venda de patrimônio público "até a formação de um novo governo".

Atenas já cortou a meta inicial de arrecadar 50 bilhões de euros até 2015, reduzindo-a para 19 bilhões. Mesmo a meta revista de 3 bilhões de euros em 2012 é improvável de ser alcançada, segundo analistas.

Os credores não estão satisfeitos, como admitiu o próprio fundo de privatizações em nota, ao dizer que "os observadores no conselho de direção que representam a União Europeia e a zona do euro manifestaram sua preocupação sobre a decisão".

Isso significa que a venda de ações em estatais importantes, como a Opap (apostas) e a Hellenic Petroleum (refinaria), que estava prevista para maio, foi adiada.

"A meta de 3 bilhões não pode ser alcançada. O mercado está ruim, e a Grécia agora tem um nível de risco que está afastando os investidores. Isso irá atrapalhar o plano de privatizações", disse um executivo bancário.

Inspetores da UE, FMI e Banco Central Europeu --a chamada "troika"-- só irão a Atenas avaliar os progressos e liberar mais ajuda quando um governo tiver tomado posse e anunciado decisões.

Mas o tempo está se esgotando, e autoridades gregas alertam que a partir do mês que vem o país pode não ter dinheiro para honrar seus compromissos.

(Reportagem adicional de Renee Maltezou)

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