Jamil Chade/Estadão
Jamil Chade/Estadão

Paróquia local dá abrigo a dezenas de estrangeiros

Igreja atende pedido do papa Francisco, mas parte da comunidade deixa de ir à missa em protesto

Jamil Chade, Enviado Especial / Ventimiglia, Itália, O Estado de S. Paulo

22 Outubro 2016 | 17h29

VENTIMIGLIA - ITÁLIA - Na modesta paróquia de San Antonio, em Ventimiglia, o arcebispo da região seguiu à risca o pedido do papa Francisco e abriu a Igreja para os estrangeiros. Locais que serviam de escritórios, sala de festas e despensa foram transformados em quartos para mais de 50 pessoas, que se apertam entre os beliches improvisados.

Em 2015, o pontífice apelou para que cada paróquia mostrasse solidariedade com a onda de estrangeiros na Europa. Poucas seguiram a ordem. Mas na cidade de fronteira entre a Itália e a França os religiosos locais entenderam que não poderiam mais deixar os estrangeiros dormindo em praças e na praia. "Com Deus não se brinca. Ele está vendo tudo o que fazemos", brincou Giuseppe, um aposentado que se ocupa de preparar a Igreja para as missas, cada vez mais vazias. 

Aberto há cinco meses, o local está com a capacidade esgotada. Segundo o escritório da Cáritas na região, a decisão foi a de acolher apenas mulheres sozinhas, famílias com crianças ou casais cujas mulheres estejam grávidas. Sem trabalho, visto ou possibilidade de continuar a viagem, é na paróquia que acabam vivendo no limbo. 

"Isso aqui é angustiante", disse Daniat, uma garota de 19 anos da Eritreia. Controlando a entrada, um imigrante afegão que, há cinco anos na Europa, decidiu desistir de procurar trabalho na Europa e passou a ser voluntário da Cáritas. Em troca, o muçulmano ganha alojamento e comida. "Um dia eu ainda consigo um emprego", diz.

Para mães, a Igreja tem sido o momento "mais próximo de casa" de todo o trajeto de meses entre a África e a Europa. "Aqui, voltamos a ser uma família", disse Hanna, que usou a última economia que a família tinha depois da morte do marido para tentar a sorte na Europa. Com quatro filhos pequenos, ela optou por um caminho mais seguro. Da Eritreia, foi para Sudão e Egito. "Ali, peguei um barco grande. Não queria me arriscar na Líbia", contou. Assim como todos os demais, aguarda uma definição dos governos para decidir se continua a viagem para o Reino Unido, onde tem parentes.

Os pais da bebê Naila, de 7 meses, também usam o gesto da paróquia para "respirar". A criança nasceu no caminho da fuga, já no Sudão e em uma casa improvisada. Para seus pais, o fato de ela estar viva "já é um milagre". O parto antes da hora obrigou a família a permanecer por alguns meses nas proximidades de Cartum. Só depois é que puderam seguir para a Líbia. "Não sabemos o que vai ocorrer conosco. Mas estamos descansando aqui e rindo com nossa filha", disse o pai de Naila, que não quer mostrar o rosto nem ter o nome publicado.

No pátio interno, crianças matam o tempo brincando e jogando futebol. São eritreus, etíopes, sudaneses e nigerianos. Cada um com sua religião.

Em um dos cantos do jardim da Igreja, uma sudanesa abre um tapete e faz suas orações, depois de identificar com seu celular a direção de Meca. 

Os religiosos decidiram que não aceitariam apenas cristãos e o resultado foi surpreendente. "Todos convivem muito bem", disse Giuseppe, destacando que os muçulmanos não criam problemas na convivência nem fazem exigências. 

Os maiores problemas, no entanto, vêm de parte da comunidade cristã local. "Tem muita gente que não gosta", conta um dos funcionários, apontando que fiéis têm perguntado por quanto tempo aquelas pessoas ficariam ali. Alguns chegaram a deixar de frequentar as missas. "Essa igreja vivia vazia, com pouca gente nas missas. Ela agora serve para algo real", disse outro voluntário. 

Funcionários do centro disseram ao Estado como, na semana passada, o enterro de um antigo morador do local causou certa tensão. A família do morto pediu ao padre que retirasse os imigrantes da entrada na hora que o caixão passasse. Com ironia, ele respondeu que não contaria ao morto que seu enterro estava sendo acompanhado por estrangeiros. E não retirou os imigrantes.

Repressão. Na quinta-feira, o Estado presenciou como uma operação de cerca de 50 policiais desmontou um centro clandestino de acolhimento de estrangeiros. No total, cerca de 40 pessoas foram detidas, além dos organizadores do centro – 23 dos mais de 40 imigrantes eram menores e seriam transferidos para um centro especializado. O restante seria devolvido para a polícia italiana, que os mandaria para o sul do país, por onde entraram. Quem não conseguisse provar que precisava ficar, seria deportado. 

Apesar de a operação contar com tropa de choque e homens fortemente armados, a reação dos estrangeiros não foi de resistência nem de tentativa de fuga.

Quem não é deportado imediatamente, acaba em um centro no lado italiano da fronteira que hoje abriga 500 pessoas. Na porta, policiais italianos fortemente armados controlam quem entra e quem sai. "Fotos são proibidas", declarou um deles, pedindo à reportagem que se retirasse do local. "Para estar aqui na porta é necessário obter uma autorização da prefeitura", alegou. 

Questionado sobre quanto tempo levaria para uma aprovação, o policial apenas mexeu os ombros. "Ninguém sabe", disse. A reportagem pediu autorização para visitar o centro. Até ontem não havia recebido qualquer tipo de resposta. 

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