REUTERS|Albert Gea
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Plebiscito na Catalunha provoca primeiros choques entre polícia e independentistas

Madrugada foi de vigília em escolas de Barcelona e no interior; início do horário da votação considerada ilegal causou atritos entre Guarda Civil e militantes nacionalistas 

Andrei Netto, enviado especial / Barcelona, O Estado de S.Paulo

01 Outubro 2017 | 07h11

BARCELONA - A repressão do governo central ao plebiscito de independência da Catalunha, considerado ilegal pelo Tribunal Constitucional, vem provocando incidentes pontuais e enormes filas em escolas de Barcelona e do interior da região na manhã deste domingo, 1. Os choques aconteceram em razão da intervenção de policiais da Guarda Civil e da Polícia Nacional enviada por Madri para impedir a abertura das seções eleitorais organizadas pelo governo regional catalão.

Na maior parte da Catalunha, a votação não acontece normalmente porque a polícia vem apreendendo urnas, cédulas e materiais eleitorais e tirando de serviço sistemas informáticos que seriam utilizados no computo dos votos. Em retaliação, os organizadores da consulta popular anunciaram no início da manhã aos indepedentistas e aos unionistas interessados em votar que seriam autorizados a fazê-los sem necessidade de títulos eleitorais ou de se dirigir a seções específicas. Com isso a lisura do voto, já questionada pelos opositores da independência, fica ainda mais prejudicada.     

Desde a madrugada, a reportagem do Estado vem acompanhando a mobilização do eleitorado independentistas em Barcelona e em cidades metropolitanas. Em escolas do centro da Capital regional, como Collaso I Gil e Mila i Fontanals, e Espai Jove La Fontana, do bairro tradicional e independentista de Gràcia, o final da noite foi marcado por mobilizações de pais, estudantes e militantes nacionalistas nas portas das escolas. Por volta das 6h, quando a polícia havia anunciado a intenção de evacuar os ocupantes e fechar os estabelecimentos, muitos militantes sentaram-se em frente às grades e portões para impedir a entrada dos Mossos d’Esquadra, a polícia regional.

A desocupação não aconteceu, e durante horas os independentistas esperaram sob chuva a abertura da seção eleitoral, às 9h, para votar. No horário marcado, filas gigantestas se formaram em frente aos estabelecimentos de ensino. Do lado de fora, os nacionalistas entoavam gritos de ordem como "Votaremos!", manifestando sua decisão de resistir a qualquer pressão da polícia e do governo de Madri. Em frente à escola Mila i Fontanals, Lluis F., oftalmólogo, exigiu seu direito a expressar sua opinião sobre a independência. "Quero o meu direito de poder opinar. Quanto mais democracia temos, mais direito de opinar temos de ter. Se não há acordo, temos de sair às ruas", argumentou. "Eu creio na independência da Catalunha, e só quero que entendam que somos diferentes – nem melhores nem piores, mas diferentes."  

Com o passar das horas, agentes da Guarda Civil e da Polícia Nacional passaram a interferir em alguns pontos da Catalunha. Um helicóptero passou a circular sobre Barcelona para monitorar a situação. No final da manhã, uma primeira desocupação forçada resultou em choques entre a polícia e os manifestantes depois que os agentes apreenderam o material eleitoral na Escola Ramon Llull, na região de El Camp d’en Grassot i Gràcia Nova. Um grupo de centenas de militantes sentou-se no chão para impedir os camburões de polícia de partirem, mas acabaram desalojados a golpes de cacetetes e com uso de bombas de gás. Na ação houve feridos leves.

Outro ponto de conflito foi o Instituto Jaume Balmes, também em Barcelona. Já no interior, a situação envolveu menos choques com a polícia e mais o bloqueio dos sistemas informáticos. Em Mataró, a uma hora ao norte da capital regional, a situação era de impasse no final da manhã. Os catalães que desejavam votar fizeram longas filas do lado de fora das seções eleitorais, mas não conseguiam efetivar o voto. "A gente não pode votar porque o sistema informático está sendo atacado", explicou o engenheiro Sergi Nebot, que participou da vigília em uma escola desde cedo.

A intervenção da polícia provocou a reação da prefeita da capital regional, Ada Colau, exortou o primeiro-ministro da Espanha a pedir demissão após a repressão em curso na Catalunha. "Um presidente de governo covarde inundou de polícia nossa cidade. Barcelona não tem medo", afirmou, completando: "As atuações policiais contra a população pacífica devem parar. Hoje todos, em Catalunha e no Estado, temos de exigir a demissão de Rajoy".

Falando em uma escola polidesportiva na cidade de Girona, o presidente regional da Catalunha, Carles Puigdemont, convocou a imprensa para também criticar o governo de Madri. "Essas medidas do Estado espanhol são irresponsáveis », reclamou, referindo-se à "violência injustificada que o governo espanhol ordenou contra as pessoas". "A vergonha que acompanhará para sempre a nossa memória enaltece as pessoas que estão fazendo filas pacientemente para conseguir votar, livremente e pacificamente. Hoje o Estado espanhol perdeu muito mais do que tinha perdido até aqui. Os cidadãos catalãos ganharam muito mais do que haviam ganhado até aqui." 

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