EFE/Luís de Jesus
EFE/Luís de Jesus

Polícia evacua grupo de imigrantes de acampamento de rua em Paris

Operação da polícia nesta segunda, 31. prepara o terreno para o desmonte do acampamento de fortuna montado no "triângulo dos migrantes", no norte da capital; ação deve acontecer em no máximo 15 dias

Andrei Netto CORRESPONDENTE / PARIS, O Estado de S.Paulo

31 de outubro de 2016 | 19h24

A prefeita de Paris, Anne Hidalgo, solicitou de forma oficial ao Ministério do Interior e ao Ministério da Habitação que procedam o desmonte do campo de imigrantes informal de Stalingrad, no norte da capital. Em carta encaminhada aos órgãos governamentais, a prefeita lembra que o número de pessoas vivendo em barracos nas ruas, em condições sub-humanas, cresceu nos últimos dias e tornou a situação insustentável. Nesta segunda, 31, a polícia voltou ao local para realizar triagem, liberando apenas os que pedem asilo político e refúgio.

Segundo organizações não-governamentais, desde o desmonte do campo de Calais, há uma semana, o número de imigrantes acampados em Paris cresceu de 2 mil para mais de 3 mil pessoas. Pelas ruas da região, apelidada "triângulo dos migrantes", as calçadas estão tomadas de tendas, de colchões e de papelões usados pelos estrangeiros para se abrigarem do frio e da chuva. Entre as nacionalidades mais encontradas nas ruas estão sudaneses, eritreus, sírios, e afegãos, que se espalham por uma área demarcada pela Avenida de Flandes e pelos bairros de Jaurès e Stalingrad, no norte da capital.

Na sexta-feira, o primeiro-ministro da França, Manuel Valls, anunciou que o acampamento improvisado de Paris terá o mesmo destino da "selva" de Calais, a favela que reunia mais de 7 mil imigrantes no norte do país. O objetivo do governo é colocar os estrangeiros que têm direito a solicitar refúgio ou asilo político em abrigos. Quanto aos demais, o destino não é evocado pelas autoridades, mas a tendência é a expulsão do país. No "triângulo dos migrantes", que o Estado tem visitado com frequência, a iminência de uma operação de evacuação é conhecida de todos. Alguns dos atuais moradores inclusive passaram por ações similares da polícia. Desde 31 de julho, 26 operações foram realizadas, a última delas em 16 de setembro. Elas deixaram o saldo a emissão de 439 ordens para deixar o território francês. 

Nesta segunda, a polícia retornou ao local para realizar o "controle administrativo" dos migrantes acampados em Stalingrad. O resultado foi mais um tumulto entre os moradores e as forças de ordem. Alguns dos estrangeiros se queixaram de terem tido de abandonar todos os seus pertences na rua em razão da abordagem da polícia. "Tudo o que eu tinha ficou para trás, roupas, sapatos e documentos", reclamou um afegão, que pediu para não se identificar. "Não nos dão abrigo e ainda destróem o que temos."

O objetivo da ação policial era verificar os documentos dos imigrantes e identificar os que já solicitaram refúgio ou asilo. Quem não tinha os papeis com a comprovação do pedido acabou detido. Mas, no momento em que a polícia começou a se retirar, dezenas de pessoas voltaram a tomar o mesmo local, muitos com tendas já abertas nas mãos. Segundo ONGs, além da precariedade da vida na rua, a miséria é crescente.

O tema é tão sensível que gera atrito entre a prefeitura de Paris, nas mãos da socialista Anne Hidalgo, e o primeiro-ministro, o também socialista Manuel Valls. A prefeita protesta contra a falta de uma solução definitiva por parte do governo. Para Hidalgo, há uma "situação humanitária e sanitária dramática" na capital. "Tanto para os imigrantes, quanto para os moradores, a situação se tornou insustentável", reclamou a prefeita em carta ao Executivo nacional, na qual exortou: "Nós insistimos na absoluta necessidade de colocar essas pessoas em abrigos". 

A pressão migratória em Paris aumentou com a temporada de verão, quando os barcos que atravessam o Mediterrâneo com imigrantes são mais numerosos. Muitos dos estrangeiros que chegam à Europa pela Itália viajam a seguir para a França. Com o fim do acampamento de Calais, a capital agora enfrenta o aumento do número de moradores de rua. Para enfrentar o problema, a prefeitura está abrindo um hangar com até 600 leitos que será usado para abrigo temporário dos migrantes.

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