Premiê sérvio diz que missão européia no Kosovo é 'inaceitável'

Para ele, reconhecimento da independência da província seria "o mais perigoso precedente após a 2ª Guerra

Reuters,

14 de dezembro de 2007 | 17h08

O primeiro-ministro da Sérvia, Vojislav Kostunica, rejeitou nesta sexta-feira, 14, a decisão da União Européia de enviar uma missão à província separatista do Kosovo, afirmando que isto criaria um "Estado marionete" em solo sérvio.  Veja também:UE propõe entrada da Sérvia em troca de acordo sobre KosovoBLOG DO GUTERMAN - Albaneses de Kosovo: os "negros" dos sérvios   "É inaceitável falar no Kosovo, uma província da Sérvia, como um futuro Estado", disse em comunicado. "É especialmente insultante oferecer à Sérvia a recompensa de acelerar sua entrada na União Européia em troca de seu consentimento à violência." Ele afirmou que o reconhecimento da independência do Kosovo seria "o mais perigoso precedente depois da Segunda Guerra Mundial". Os líderes da UE concordaram nesta sexta em enviar uma missão ao Kosovo antes de uma esperada declaração de independência, que viria no começo de 2008. Os Estados Unidos e grande parte da União Européia já indicaram que reconhecerão o território.  O presidente sérvio, Boris Tadic, disse que a Sérvia não renunciará ao Kosovo e também não permitirá que a solução do estatuto da província prejudique a entrada do país nas instituições européias. Ele afirmou que a independência do Kosovo prejudica a estabilidade da região dos Bálcãs e anunciou que a Sérvia continuará tentando entrar na União Européia (UE), já que a alternativa seria o isolamento do país e seu desmoronamento econômico. A promessa de acelerar o ingresso da Sérvia na União Européia é mais controversa. Muitos argumentam que a UE precisa encorajar reformas em Belgrado, que realiza eleições presidenciais no próximo mês. Porém, a Holanda insiste que a Sérvia deve entregar primeiro os seus criminosos de guerra ao Tribunal Internacional de Haia para julgamento. A medida apaziguadora é um primeiro passo desde que o Tratado de Lisboa foi assinado, na quinta-feira. O novo acordo entre dos 27 países reforça a importância da negociação diplomática e distancia ações mais ofensivas, como as promovidas pelos Estados Unidos. Sérvia e Kosovo têm posições irreconciliáveis. Durante as negociações, os sérvios ofereceram o máximo de autonomia, bandeira, hino e até uma seleção de futebol. Belgrado só controlaria a política externa e sobre o patrulhamento das fronteiras. A maioria albanesa, contudo, não aceita outra coisa que não a independência total. Postura dividida Kosovo tem 2 milhões de habitantes, dos quais 95% são albaneses e 100 mil sérvios. A região é parte da Sérvia. A divisão de um Estado multinacional seria um convite para que minorias em outras partes do mundo também reivindiquem a emancipação. Num continente abarrotado de países multinacionais como a Europa, Kosovo pode ser sinônimo de um desarranjo gigantesco. O medo de estabelecer uma jurisprudência é a maior razão de a UE estar dividida sobre o assunto. Espanha, Eslováquia, Hungria, Grécia, Bulgária, Chipre e Romênia - que convivem com minorias étnicas - são contra a independência de Kosovo. A favor dos albaneses estão os EUA e a maior parte da UE, principalmente França, Reino Unido, Alemanha e Itália. Existe também oposição fora do bloco. A Turquia, por exemplo, apesar das boas relações com os albaneses, evita o tema exatamente porque tem de lidar com uma minoria curda em seu território.  Já os russos não querem Kosovo independente por uma série de razões. Além da afinidade histórica e religiosa, a Rússia é a maior fonte de recursos externos da Sérvia, que retribui jurando fidelidade a Moscou. Além disso, o separatismo também é sensível ao Kremlin, que não tolera o nacionalismo checheno.  O cenário mais provável, segundo a maioria dos analistas, é que Kosovo declare sua independência, que seria reconhecida por parte da UE e pelos EUA, mas não pela Sérvia, Rússia e vários outros países. O novo país, porém, nunca conseguirá um lugar na ONU, já que Rússia e China têm poder de vetar a entrada de novos membros. Caso a independência seja mesmo declarada, o governo sérvio diz ter um plano de ação para responder à altura. A primeira medida deve ser o fechamento das fronteiras e um bloqueio comercial a Kosovo. Cerca de 70% do comércio kosovar depende da Sérvia. Belgrado, que fornece a metade da energia elétrica da província, poderia também interromper o fornecimento de luz, deixando os albaneses na escuridão em pleno inverno.

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