Markus Schreiber/AP
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Prêmio Nobel pode restaurar senso de propósito da UE

ANÁLISE: Premiação é incentivo moral enorme para organização que teve experiência de quase-morte

PAUL TAYLOR, Reuters

12 de outubro de 2012 | 17h50

BRUXELAS - Ganhar o Prêmio Nobel da Paz é um incentivo moral enorme para uma organização que recentemente teve uma experiência de quase-morte e ainda não está totalmente certa de que esteja fora de perigo. Ao destacar a realização central da União Europeia de assegurar a paz em um continente cheio de cicatrizes de guerra, os jurados do Nobel podem dar de volta ao bloco de 27 nações um senso de propósito que seus integrantes parecem ter perdido em seu cotidiano.

 

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A UE ainda é um ímã de esperança e prosperidade para as democracias emergentes da Europa Oriental e dos Balcãs, mas não é amada pelos europeus tradicionais, cujo senso de pertencimento permanece nacional ou local, e não europeu. A imagem do bloco entre muitos dos 500 milhões de cidadãos da UE tem sido manchada pela inacabada crise da dívida na zona do euro, que tem alimentado partidos populistas de extrema-direita e de extrema-esquerda em muitos países-membros.

O primeiro-ministro italiano, Mario Monti, pediu aos líderes da UE para realizarem uma cúpula especial para abordar "a reação contra a integração europeia" e o surgimento de suspeita e preconceito devido à gestão da crise. A sobrevivência da moeda partilhada por 17 Estados da UE - o projeto econômico central da Europa - tem mostrado incertezas nos dois últimos anos. Os mercados financeiros perderam a confiança na dívida dos países periféricos problemáticos e duvidaram da determinação das autoridades europeias para manter o euro.

Isso agora parece estar assegurado, após o Banco Central Europeu ter prometido, no mês passado, comprar quantidades ilimitadas de títulos de curto prazo de governos a fim de derrubar qualquer tentativa de apostas no rompimento da moeda única. Mas grande parte do continente enfrenta uma opressiva recessão e cortes em pensões, além de redução de direitos trabalhistas e de benefícios sociais, fatores que definiram há muito tempo um generoso modelo social europeu.

'Resultado mais importante'

 

A citação do Nobel reconheceu que a UE está atravessando graves dificuldades econômicas e instabilidades sociais. "O comitê (...) do Nobel deseja se concentrar no que ele vê como resultado mais importante da UE: a luta de sucesso pela paz e reconciliação e pela democracia e direitos humanos", afirmou, entretanto, a comissão julgadora. "O papel de estabilização desempenhado pela UE tem ajudado a transformar a maior parte da Europa de um continente de guerra em um continente de paz."

Os jurados destacaram como a UE se expandiu para abraçar novas democracias em Grécia, Espanha e Portugal, e os antigos países comunistas da Europa Central e Oriental após a queda do Muro de Berlim, consolidando o pluralismo, o Estado de direito e a economia de mercado.

Os políticos europeus apressaram-se em felicitar-se e tomar o crédito pelas realizações do pós-guerra, com estadistas que superaram as fronteiras nacionais para forjar uma primeira união do carvão e do aço, em seguida com o livre comércio, a agricultura subsidiada e assistência às regiões mais pobres. No entanto, em uma organização que tipicamente muitas vezes se esforça para falar a uma só voz, ainda não está claro quem vai receber o prêmio em seu nome.

O presidente do Conselho Europeu, Herman Van Rompuy, e da Comissão Europeia, Durão Barroso, fizeram suas reivindicações em conjunto. Mas o presidente do Parlamento Europeu, Martin Schulz, deixou claro que também espera ser convidado para a cerimônia de Oslo. Alguns podem argumentar que o presidente do Banco Central Europeu, Mario Draghi, também deve estar lá para representar a instituição federal que tem mantido a zona do euro nos trilhos.

O prêmio pode não livrar os líderes de hoje da UE das críticas de que eles muitas vezes sacrificam os interesses de longo prazo europeus por considerações domésticas de curto prazo ou conflitos territoriais institucionais. Países problemáticos da zona do euro como Grécia, Irlanda e Portugal foram resgatados apenas no último momento, quando já estavam se afogando, e sob condições punitivas e draconianas.

Líderes como Konrad Adenauer e Charles de Gaulle, que selaram a reconciliação franco-alemã, Jean Monnet e Robert Schuman, que fundaram a Comunidade Europeia do Carvão e do Aço, e entre veteranos sobreviventes, Helmut Schmidt, Valery Giscard d'Estaing, Helmut Kohl e Jacques Delors, que criaram a moeda única, poderiam ter tido um maior reivindicação das honras do Nobel do que a atual safra de gestores de crises da UE.

A perspectiva de uma maior integração da zona do euro, amplamente vista como essencial para colocar a união monetária em uma base econômica e política mais estável, é obscurecida pelo apego à soberania nacional dos fundadores, como nos casos de França e Holanda.

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