Putin pede comparecimento eleitoral para legitimar sucessor

Presidente incentiva votação para "desmoralizar oposição", que chama pleito de "encenação da democracia"

Agências internacionais, REUTERS

29 de fevereiro de 2008 | 10h34

O presidente russo, Vladimir Putin, conclamou os compatriotas a comparecer às urnas no domingo para dar uma vitória convincente ao seu candidato, Dmitry Medvedev, e desmoralizar a oposição que vê na eleição presidencial apenas uma encenação de democracia.   Veja também: Comissão eleitoral russa admite cobertura desigual da mídia TV russa favorece amplamente candidato de Putin Popularidade de Putin marca eleição previsível Entenda o processo eleitoral na Rússia O vice-premiê Medvedev, que goza da boa vontade da mídia e do apoio de Putin, deve ser o vencedor. Um baixo comparecimento, no entanto, poderia afetar sua autoridade aos olhos dos céticos de dentro e de fora da Rússia. Analistas dizem que o Kremlin gostaria de ver um comparecimento de pelo menos 70% do eleitorado - o voto é facultativo. "Todos nós entendemos que papel grande e responsável o líder de um Estado como a Rússia tem", disse Putin num rápido pronunciamento pela TV. "E como é importante para ele ter a fé dos seus cidadãos. Ele precisa disso para [realizar] um trabalho eficaz e confiante em seu posto presidencial, para garantir a estabilidade no país." Proibido de buscar um terceiro mandato, Putin já deixou claro que pretende manter sua influência, possivelmente ocupando o cargo de premiê. De certa forma, a eleição de domingo testa sua popularidade. Medvedev nem se preocupou em fazer campanha contra seus três rivais, que por sua vez travaram debates agressivos e fizeram comícios entusiasmados. Para estimular o comparecimento eleitoral, as operadoras de celulares estão enviando mensagens a seus assinantes. Cartazes nas ruas e faixas distribuídas às pessoas também lembram que haverá eleição no domingo. "Apelo a vocês para irem à eleição no domingo e votarem por nosso futuro, pelo futuro da Rússia", disse Putin, cuja popularidade é ajudada pela boa fase econômica do país e pela relativa estabilidade que marcou seus oito anos de governo. A principal entidade européia de direitos humanos desistiu de monitorar o pleito, queixando-se de dificuldades impostas pelas autoridades para acompanhar a votação numa área enorme, que vai do mar Báltico ao oceano Pacífico.   Divisão do poder   Segundo a BBC, de acordo com a Constituição russa, a Presidência é a instituição mais poderosa dentro do aparato do Estado. Além de ser o chefe de Estado, o presidente também é o responsável por estabelecer as políticas de governo. Ele pode vetar leis aprovadas pelo Parlamento e também aponta os chefes de governo regionais.   O primeiro-ministro toca o dia-a-dia do governo, sob orientação das políticas presidenciais. O presidente tem o poder, inclusive, de destituir o primeiro-ministro. Mas, dessa vez, a grande diferença é que o primeiro-ministro será uma figura bem mais proeminente do que o presidente, caso Putin seja confirmado no posto.   Ao fim de seu segundo mandato, Putin deixa o poder com taxa de aprovação de 85%, segundo uma pesquisa do Centro Levada. Para maior parte dos analistas russos, essa é uma situação que nunca existiu no país, e ninguém sabe precisar como de fato a Rússia será governada.   "Czar"   "De acordo com os poderes dados pela Constituição, o presidente é quase um czar. Então, com uma pessoa forte como o Putin, talvez seria um passo - não pensado pelos políticos - a uma democracia mais equilibrada, a uma divisão mais equilibrada entre o Executivo e os outros ramos do poder", afirma o analista russo Anatoly Sosnovsky.   Já o jornalista Rodrigo Fernandez, correspondente do jornal El País, diz que "a maioria acredita que, no final, manda quem está no Kremlin (o presidente). Aqui há uma grande tradição nesse sentido".   Dmitry Medvedev e Vladimir Putin trabalham juntos desde os anos 90, quando assessoraram o prefeito de São Petersburgo.Em 2000, Medvedev foi chefe da campanha presidencial de Putin. Em 2003, ele passou a chefe de gabinete. "Eu o conheço há mais de 17 anos, eu tenho trabalhado de perto com ele todos esses anos", disse Putin ao apoiar a candidatura de Medvedev.   Muitos acreditam, inclusive, que ele tenha dado o seu apoio a um aliado tão próximo justamente para continuar tendo um papel importante e, eventualmente, tentar novamente a Presidência em quatro anos.   Na opinião de Fernández, no caso de uma eventual confrontação, Medvedev triunfaria. "Estando no Kremlin, Medvedev poderia mostrar sua verdadeira face, e os que o conhecem dizem que é um homem muito ambicioso, muito vaidoso. E muitos acreditam que ele poderia vir a enfrentar Putin, se isso fosse necessário, mas isso pode não ser necessário", afirma. "(Eles) têm idéias semelhantes. À primeira vista, não há motivos para um conflito sério", completa.   Já o jornalista Sergey Dorenko, da Rádio Echo de Moscou, considerada independente, acredita que Medvedev buscará uma crise para poder se livrar do 'acordo' que travou com Putin. "Só em uma crise, econômica, política ou social, ele poderá se desfazer desse pacote de precondições (que travou com Putin). Então, ele buscará essa crise porque a carga de Putin será muito pesada. Ele poderá agüentar quanto tempo, um mês, dois meses, seis meses, um ano ou dois anos? Não sabemos", afirma.   O futuro da dupla Medvedev-Putin pode ser imprevisível, mas os eleitores que irão votar em Medvedev por causa da popularidade de Putin não parecem preocupados com as formalidades ou tramas do poder.

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